Sobre mídia e política

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1) Num país muito, muito distante, pela primeira vez uma mulher tinha chances reais de ser eleita Presidente da República. Ela tem as qualificações necessárias. Lutou contra o regime autoritário (coragem e idealismo), foi ministra de um dos governos mais bem avaliados pelo povo (competência), enfrentou e venceu uma doença grave (força e esperança). Mas seu adversário era um homem poderoso. Poderoso e aliado dos principais veículos de comunicação de massa. Foi assim que durante a campanha eleitoral esses veículos de comunicação conseguiram duas proezas: 1) inventaram o crime de dossiê, que não está previsto no Código Penal, e o atribuíram aos aliados da candidata; 2) ao inventar o crime de dossiê, eles ajudaram a encobertar os crimes – esses sim previstos no CP – cometidos pela turma do candidato poderoso, quando ela estava no governo federal. Porque, afinal de contas, era isso que tinha no tal dossiê, crimes cometidos nas privatizações, fato jornalístico docemente omitido pelas corporações de mídia desse país muito, muito distante.

2) Segundo pesquisa do Ibope, a audiência da Globo segue em queda. O mês de maio terminou com o pior resultado já obtido ela emissora entre 7h e 0h, na Grande São Paulo: 16,3 pontos. Isso representa meio ponto de ibope a menos que o obtido em abril. Cada ponto no ibope equivale a cerca de 60 mil domicílios na Grande São Paulo.

3) Ao declarar que o governo boliviano é cúmplice do tráfico de cocaína para o Brasil, Serra faz uma escolha arriscada. Em lugar de provocar o debate mais amplo sobre a questão das drogas, ele investe no radicalismo binário. A culpa é do índio maluco. Serra vai buscar a tese do inimigo externo justo no país vizinho, cujo PIB não chega a um décimo do brasileiro. Mas tem um governo de esquerda, que erradicou o analfabetismo e, muito importante, tem um povo que o aprova em sua grande maioria. Nada de atacar o imperialismo ianque ou seu enclave na América do Sul, a Colômbia. O grande inimigo do Brasil, para Serra, é a Bolívia. Um raciocínio que projeta a criminalização da pobreza – muito presente no modo demotucano de governar – em níveis continentais e nos lembra que a política externa que ele defende é a do alinhamento automático às grandes potências.

4) Sobre as eleições na Colômbia, é bom ficar de olhos bem abertos. As pesquisas de opinião davam empate técnico, mas o candidato uribista, Manoel Santos, ex-ministro da Defesa, venceu o primeiro turno com quase o dobro dos votos. Observadores internacionais disseram que muitos eleitores deixaram de votar por conta da “violência”. A direita põe a culpa nas Farc. Eu tenho lá minhas dúvidas. Por que as Farc fariam uma ação que favorecesse o candidato uribista?

5) Blogueiros progressistas do Brasil: uni-vos! O chamado é de Luiz Carlos Azenha, em seu Viomundo.com.br: “Estivemos reunidos em um restaurante de São Paulo: eu, Altamiro Borges, Rodrigo Vianna, Eduardo Guimarães e Conceição Lemes. Mais um pouco não seria um jantar, mas uma conspiração. Tratamos de uma ideia que não é necessariamente nova, nem original: da convocação de um Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas. (…) agora que temos leitores, do mesmo jeito que aconteceu nos Estados Unidos, um país de dimensões continentais, acreditamos na necessidade de um encontro presencial entre blogueiros. Para que as pessoas se encontrem e se conheçam”. Íntegra aqui: http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/o-encontro-nacional-de-blogueiros-progressistas.html.

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3 comentários em “Sobre mídia e política

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  2. Marcelo, sobre as eleições na Colômbia, vc faz uma pergunta pertinente: por que as Farcs fariam uma ação em benefício de seus inimigos – Álvaro Uribe/Juan Manuel Santos?
    Acrescento outra: por que a disparidade enorme nas pesquisas – do empate técnico à vitória esmagadora do candidato uribista? A qual, ao que parece, deve ser confirmada ou ampliada no segundo turmo, próximo dia 20.
    Tenho lido os sítios que considero mais confiáveis (além dos brasileiros, os de Telesur, La Jornada/México, Página 12/Argentina e Público/Espanha) e não consegui entender bem.
    Para as forças que costumamos chamar, na falta de uma designação mais precisa, progressistas, a Colômbia é uma tragédia. Desde 1948, quando assassinaram aquele líder popular/liberal Jorge Gaitán, o país vive até hoje, 62 anos após, uma conflagração. Além da incrível longevidade de grupos guerrilheiros (as Farcs em especial), é um tal de assassinar opositores, candidatos a presidente, sindicalistas e simples camponeses (os últimos para serem “transformados” em guerrilheiros, os “falsos positivos”). Tudo mesclado com paramilitares, narcotraficantes e espionagem de opositores; agravado com os milhões de miseráveis e refugiados (os “desplazados”, deslocados); e reforçado com o domínio da mídia, inclusive internacionalmente.
    Parece ser uma violência institucionalizada, uma coisa horrível. Ficando pela América Latina, vemos matança semelhante no México, mas confesso minha igonorância quanto à realidade mexicana (no nosso Brasil também se mata muita gente pelas periferias das grandes cidades – além de sindicalistas rurais, sem-terra -, mas aí a maioria é pobre/negra, ninguém liga).
    Há dois ingredientes no caso das eleições colombianas que me parecem importantes:
    1 – O poder de manipulação das informações do pessoal de Uribe (com apoio integral do império), cuja política belicista parece encontrar amplo respaldo nas camadas médias e no chamado povão, que não vislumbram outras opções em meio a tanta violência;
    2 – O poder de intervenção, legal e supra-legal, do pessoal de Uribe no interior do país, lá onde a voz do terror é a voz de Deus, lá nos grotões, como dizemos (ou dizíamos) no Brasil.
    Um dia desses, no meu caminhar pela América Latina/Caribe, espero fazer uma temporada na Colômbia para ver mais de perto a coisa (minhas andanças estão no blog Evidentemente – http://www.blogdejadson.blogspot.com).

  3. marcelo, a gente percebe q a audiência da globo está em queda quando vejo senhorinhas que provavelmente viam o JN dizerem: “a globo nao informa nada”. escutei isso, reforcei a informação e vi q realmente a audiência cai. até pq como confiar num editor chefe viciado em falar com os “sobrinhos” internautas…?
    belo texto

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