Política

Sirilo dos Santos Rosa, ex-presidente da Associação Quilombola Kalunga, na Comunidade Engenho 2. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Quilombolas: a luta dos Kalungas por sua terra

Share
Sirilo dos Santos Rosa, ex-presidente da Associação Quilombola Kalunga, na Comunidade Engenho 2. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Sirilo dos Santos Rosa, ex-presidente da Associação Quilombola Kalunga, na Comunidade Engenho 2. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Cavalcante (GO) – As comunidades dos Kalungas ficam no maior território remanescente quilombola do país. Espalhadas no entorno da Chapada dos Veadeiros, no Goiás, se tornou um forte polo turístico na região. Além das cachoeiras e paisagens naturais deslumbrantes, mantém suas festividades e tradições milenares como atrativo cultural. Também são conhecidos pela sua produção orgânica, que é vendida nos municípios do entorno, como Cavalcante (GO), cidade mais próxima. Mas tudo isso só é possível hoje graças à luta dos quilombolas nos últimos séculos.

Para contar essa história e um pouco do funcionamento da comunidade, conversamos com Sirilo dos Santos Rosa, ex-presidente da Associação Quilombola Kalunga, na Comunidade Engenho 2. Segundo ele, o principal desafio continua sendo a regularização fundiária. Assim como a maioria dos quilombos no Brasil, apesar de há séculos ocuparem o território até hoje os Kalungas não têm a titulação da sua terra. Na entrevista ele fala também sobre a chegada do turismo, a preocupação com a saída dos jovens e os futuros projetos dos Kalungas.

Os Kalungas estão há quanto tempo nesse território?

Desenho na entrada na comunidade. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Desenho na entrada na comunidade. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Somos quatro gerações, essa comunidade existe há mais de 300 anos. Os descendentes dos nossos antepassados vieram da África, do navio negreiro desembarcavam em Salvador, na Bahia, e de lá eram trazidos pelos portugueses para trabalhar no garimpo de ouro que era forte nessa região. Teve muito trabalho com engenho de cana também, o patriarca Mateus Francisco Maia, dono dessas terras, tinha dois engenhos, daí o nome da região. Tinha rapadura, açúcar mascavo, cana, muita cachaça, sem contar o engenho com a roda de moinho com duas pedras. Dizem que era de moer trigo, mas só se for vindo de fora porque aqui não plantavam. A senhora que faleceu aqui com 112 anos de idade, morreu em 2006, disse que os pais dela moraram aqui e não sabem quem era o dono das terras desse engenho.

Kalunga quer dizer o quê?

Tem uma planta chamada Kalunga, que na época da febre, a malária, que nós chamávamos de cezãoou maleta, curava essa febre. E em Monte Alegre tem também um rio chamado Kalunga, e em alguns países da África significa homem feliz. Nossa comunidade é quase auto subsistente, compramos o mínimo, praticamente só o sal e o óleo vêm de fora. Toda a nossa produção é sem agrotóxicos. Aqui é assim: se tivermos um dinheirinho a gente vive, e se não tiver também não passamos fome. O Kalunga não passa fome, o dinheiro faz falta para outras coisas.

Você é a liderança da comunidade?

As casas de alvenaria chegaram há poucos anos na comunidade. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

As casas de alvenaria chegaram há poucos anos na comunidade. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Fui presidente da Associação, mas primeiro fui liderança comunitária. Os de fora me consideram como um prefeito, porque fui o primeiro a se mobilizar para desenvolver a comunidade. Levei a Fundação Palmares para fazer o reconhecimento da comunidade, e eles mandaram o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para fazer o levantamento e a demarcação. Nossa parte aqui tinha ficado fora da demarcação, umas 84 famílias, isso foi em 1992. Começaram a fazer o registro dessas áreas, porque as outras já estavam contempladas.

Tem outras comunidades quilombolas na região?

Tem umas 20 comunidades kalungas por aqui, são cerca de 8 mil pessoas. Na nossa comunidade são cerca de 500 pessoas, umas 135 famílias. Só tem três pessoas que não são naturais daqui, dois professores e outro cidadão aposentado. Tem também um médico cubano que chegou recentemente.

O turismo chegou quando aqui?

O turismo foi uma coisa bem vinda para comunidade. Já como liderança fui chamado lá em Goiânia, na Goiás Turismo e no Sebrae, para ver se nós aceitávamos o turismo porque é um território particular. Perguntaram se a comunidade tinha interesse em desenvolver porque tinha muito atrativo e objetivo, que era distribuir renda para a comunidade sem degradar o meio ambiente. Já tinha um pouco de conhecimento sobre o turismo nos outros lugares, porque fui até Macapá para conhecer a comunidade lá com forte atrativo turístico e artesanato, além da pesca. Então, desde que venha um turismo que não venha a nos afastar dos nossos direitos e da nossa cultura… Quase não tem gente de fora no nosso turismo, às vezes tem guias de Alto Paraíso e Cavalcante porque também temos direito de guiar por esses lugares, é uma parceria.

Cachoeira Santa Bárbara, principal atração turística na comunidade. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Cachoeira Santa Bárbara, principal atração turística na comunidade. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Vejo que é uma coisa que vai segurar os jovens nas comunidades, porque eles saem muitas vezes pelo estudo e por falta de ganhar dinheiro. E assim facilita também manter a escola para esses jovens, porque é um problema o jovem ir embora e perder a identidade e cultura das nossas comunidades morando na cidade. Mas deu tudo certo. Estive em Goiânia com outras lideranças quilombolas, porque são três municípios né, mas uma delas ficou desconfiada de que o turismo fosse pegar as terras deles que já eram tituladas. A outras se interessaram, mas achavam que por não ter cachoeira não tinha atrativo. Então explicaram que os turistas gostam das festas tradicionais e religiosas, aquelas pedras escritas também, pintura rupestre, então também foram favoráveis só que o pessoal vem muito para aqui. E fomos melhorando passo a passo com o turismo, hoje nós temos uma escola até o 3º do ensino médio, o presidente Lula veio aqui em 12/03/04.

A luz e as casas de alvenaria vieram com o governo Lula?

A luz foi, mas as casas de alvenaria já tinha algumas porque o governo do estado tinha doado um cheque de moradia e reforma. E já tinha algumas que as pessoas mesmo construíram, mas ficaram algumas casas de pau a pique como amostra e para não acabar a origem. Como hoje é um lugar turístico tem que ter alguma coisa da origem para mostrar, mas nós preferimos alvenaria até porque previne algumas doenças, picadas de insetos, incêndios e para ajudar a preservar a natureza. Porque temos aqui 150 famílias, se todas essas casas fossem cobertas de palha não teria mais uma palmeira com folha nem madeira. Porque uma casa dessas não aguenta muito tempo, em três anos está vazando.

Então depois da vinda do IPHAN na década de 90 vocês só titularam quando veio o Lula?

Casa de farinha dos Kalungas. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Casa de farinha dos Kalungas. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

A gente não tem o título definitivo, temos um que a Fundação Palmares fez mas ele ainda não foi registrado e o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) faz todo o seu trabalho geográfico baseado nesse título. Nós temos um patrocínio da Petrobras de 2011 para a associação Quilombo Kalunga, no valor de R$ 1.360 milhão para trabalhar com o turismo. Fizemos um Centro de Atendimento ao Turismo (CAT), ajeitamos essas trilhas, fizemos uma usina em Teresina para aproveitamento dos frutos do cerrado e uma fábrica de sabão de tingui, sabugo de milho, pau de gergelim, etc,em Monte Alegre.

Esse apoio interfere nas tradições e na cultura Kalunga?

A gente consegue manter, porque muitas vezes o próprio turismo vem baseado por nossa identidade.Em poucos lugares do Brasil tem a nossa cultura, não sãosó os atrativos naturais que trazem as pessoas aqui. Temos as festas de Santo Antônio e Nossa Senhora das Neves, nas comunidades próximas tem as grandes romarias que há mais de cem anos o pessoal pratica.

Qual a principal fonte de renda depois do turismo?

Nossa principal fonte de renda é a agricultura, depois vem a pequena pecuária e uns porquinhos, tudo para o nosso sustento.

Como vocês dividem o terreno, são todos do mesmo tamanho?

Não é dividido, é coletivo. É de igual para igual no direito da terra, mas a renda quem produzir mais ganha mais. O turismo tem um preço fixo, mas no cultivo e no gado cada um toca o que puder.

E depois das casas e a luz, qual é a principal reivindicação da comunidade?

A permanência das novas gerações no território é uma preocupação dos mais velhos. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

A permanência das novas gerações no território é uma preocupação dos mais velhos. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

A regularização fundiária, porque só começou. Até hoje ainda tem conflito de terra na região, tem fazendeiros sem criação nenhuma que não gosta que entrem nas terras deles. Fiquei até sabendo que tem um moço andando armado, que não aceita nem o agrimensor do INCRA entrar para medir. Só que vai acabar vindo a Federal para eles deixarem de ser besta. Então o principal é a questão fundiária, porque assim aqueles lugares que estão ocupados por latifundiários que não são daqui vão criando mais espaço para nós trabalhar. Tem muita gente aí sem poder abrir as pernas né, porque não tem um trabalho. Então depois que indenizar os fazendeiros que estão com as terras melhores no poder deles vai criando espaço, e os kalungas que estão na cidade e quiserem voltar também. Estão morando na cidade porque aqui não tem um trabalho. O perímetro está todo demarcado, mas dentro dele tem fazendeiros que estão para ser indenizados. Já tem alguns indenizados.

O que o governo tem falado sobre isso?

O INCRA fala que devido à documentação dos imóveis, que são muito complicadas… Tem umcom 14 documentos iguais né, daí não sabe quem é o verdadeiro dono, tudo registrado em cartório. Então, para isso tem que fazer um grande trabalho que não é fácil. Na época o próprio cartório fazia muamba, vendia para um e passava um documento e depois vinha outro querendo comprar e eles vendiam também esse mesmo imóvel. Foram criando essas maçarocas, é o maior problema que está dando. E agora tem outra parte que cabe ao estado indenizar, são aquelas sem o título mesmo, essas parece que está começando a agilizar para ver quem são os verdadeiros donos para passar o INCRA e acertar.

Você tem ideia de quantas pessoas visitaram a comunidade depois que entrou o turismo?

Muitas crianças circulam pela comunidade livremente. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Muitas crianças circulam pela comunidade livremente. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Tem uns controles no livro de visitas de uns tempos para cá, mas ainda não fizemos um levantamento. E temos projetos para aumentar as trilhas e também ter mais cursos aos guias para eles interagirem e conduzir ainda melhor as pessoas. Tem que ter uma boa capacitação desses condutores de visitantes, já teve algumas mas está precisando de mais porque aprender nunca é bastante. Estamos também estudando a possibilidade de um dormitório para os turistas, ou uns campings bem arrumados.

Tem algo que eu não tenha perguntado que é importante destacar?

Destacar em primeiro lugar a titulação, depois o turismo sustentável como fonte de renda e a agricultura orgânica como alimentação saudável. Vendemos feijão, farinha, arroz, plantas medicinais, um monte de coisa daqui. E o Brasil devia nos ver não só como quilombolas, mas como um povo comunitário, de seres humanos. Não temos violência com ninguém, não temos usuários de drogas, que é a parte que mais está causando a violência. Nossos problemas resolvemos aqui mesmo, conversamos entre a gente, dificilmente precisa mexer com justiça na cidade. Já aconteceu até de chamar e ninguém vir, porque sabem que a gente consegue resolver. Sabem que temos um regime particular, outro tipo de movimentação que dá para viver sem incomodar a justiça lá fora. Quando é uma coisa grave com os latifundiários, por exemplo, a gente vai logo na federal. Temos algumas regras de convívio, como bar aberto só até certa hora, ainda mais com o turismo com pessoas vindo da cidade grande para ter sossego. A cachaça também é limitada, não pode ficar solta de qualquer jeito e de menor não pode comprar nem usar sem estar com alguém mais velho.

Share

Mais da seção Política

O fundamental voto em Dilma Rousseff

Vocês, companheiros e companheiras, viram a reação de bom número de parlamentares à decisão da presidenta Dilma de criar conselhos populares, uma proposta importante, embora, admita-se, tímida. Na verdade este nosso direito, fruto da revolução francesa no século XIX, é o principal mecanismo de controle da classe trabalhadora, encapsulada pela normatividade jurídica em princípios e regras de controle e submissão, com a ressalva de limitados respiradouros incluídos por Getúlio Vargas na Consolidação das Leis Trabalhistas em 1943. Leia mais »

O Lindo Conto da Meritocracia Brasileira

Meritocracia é, ou deveria ser um sistema que visa sempre justiça e equidade, não dando espaço para distinções de gênero ou raça, posição social, status ou condição financeira, e outros mais fatores. Não me parece muito justa essa peleja ou, ao menos próximo do conceito, mas essa é a meritocracia à brasileira tão defendida pelos ditos neoliberais. Leia mais »

20 anos de transgênicos: há o que comemorar?

selo-transgenico

O jornal Valor Econômico publicou em 16 de junho duas matérias que, em síntese, comemoram os 20 anos da aprovação do primeiro alimento transgênico no mundo. Muitos dados são apresentados sem a citação de fontes de informação, assim como afirmações a respeito de supostos benefícios dos sistemas de produção baseados no uso de sementes transgênicas e até mesmo de vantagens para os consumidores são apresentadas de forma igualmente carente de embasamento Leia mais »