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É preciso vencer Dilma nas ruas a partir da próxima semana

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Nunca fiz campanha na vida. Minha militância sempre se deu através do jornalismo crítico, buscando dar voz aos silenciados ou às opiniões e informações omitidas por interesses particulares. É na reportagem que expresso minha visão de mundo, ainda que pela voz dos outros. Mas pela primeira vez revolvi escrever sobre política em uma eleição (que eu lembre, de artigo político só publiquei um sobre a luta indígena e outro sobre a reforma do Maracanã). Como sempre atento ao que vejo e escuto, tenho reparado que as discussões seguem aquela lógica binária do bem e mal, preto e branco. Seja dos presidenciáveis, ou dos seus defensores nas ruas e mídias sociais. Insultos, diversos dados sobre o mesmo assunto, mentiras, enfim, tudo movido pela paixão, que nem discussão de futebol. Vou tentar fazer uma análise de Estado, e não Dilma ou Aécio. Minha inquietação é com a engrenagem, não com o piloto da máquina. Consciente de que no nosso sistema representativo é preciso escolhê-lo.

A corrupção não foi criada pelo PT no Brasil, vem desde o império, passa pela velha e nova república, estado novo, ditadura militar, até chegar à nossa democra$$ia. Também encheu o bolso do PSDB quando estava no poder, hoje oposição. Não estou na defesa do rouba mas faz, trata-se de reconhecer que nossas instituições não foram alteradas no processo histórico: o clientelismo, patrimonialismo, clientelismo, nepotismo, e tantos outros malefícios incrustados no Estado, continuam prevalecendo. É a cultura impregnada na máquina, que mantém sua engrenagem se retroalimentando. Está viciada, e é necessária a clareza sobre a participação do setor privado. Não existe corrupção sem corruptor. Atribuir ao PT tudo o que há de ruim no país é despolitizar as raízes estruturais dos nossos problemas. A corrupção não nasceu há 12 anos.

Mesmo que eu desconfie de dados institucionais, pois quem os contabiliza sempre tem seus interesses, é inegável as transformações nos últimos anos. A projeção do Brasil no mundo mudou, gostemos ou não do PT. Milhões de pessoas saíram da miséria, nossa taxa de mortalidade infantil diminuiu e a de expectativa de vida aumentou, cresceu o número de empregos e o salário mínimo, a inflação abaixou embora esteja no limite da meta, etc. Pela primeira vez na história uma forte seca não matou gente no nordeste, o que para muitos insensíveis é sinônimo de populismo eleitoreiro. As pessoas estão comprando moradia em proporções nunca antes realizadas, ainda que insuficientes. Resumindo, indiscutivelmente são mais fatos favoráveis que contra. Tudo isso em pouco mais de uma década. Mas não estão fazendo favores, e sim cumprindo com suas obrigações. Afinal, são funcionários da sociedade, seus salários saem dos bolsos dos contribuintes. Foram eleitos para isso, e é nossa obrigação cobrar.

Mas as contradições estão aí, e apesar dos avanços o mal estar da sociedade se expressou com milhões de pessoas nas ruas em todo país. Estamos indignados, embora nas eleições para o Congresso (para minha frustração) isso não tenha se refletido: conseguimos uma composição ainda mais conservadora, algo que eu imaginava impossível. Um museu de grandes novidades (famílias tradicionais, religiosos e militares). Se o PT não rompeu com a engrenagem, como disse antes, acabou a estimulando em nome do poder. E está pagando seu preço com as dificuldades na reeleição. Não adianta achar que vai avançar mais nos (muitos) projetos que estão dando certo fechando com Sarney, Collor, Calheiros e Maluf. Discursam o futuro acorrentados ao passado. Chegou a hora de se reposicionar, pois esse modelo chegou ao limite. Se não mudar suas alianças perderá o bonde da história. Ter o PMDB de vice (Michel Temer), por exemplo, sinaliza para o que há de pior no fisiologismo político no Brasil. Quando a casa cair é ao lado da oposição que o PMDB estará, não tenha dúvidas. Já fazem parte da máquina, independente das votações.

Aumentar mais escolas todos queremos (no campo muitas foram fechadas), mas a quantidade precisa caminhar junto à qualidade. Não é possível construir uma nação letrada com a atual indignidade salarial dos professores, e não há futuro nacional sem uma educação conscientizadora. É impossível desconsiderar também a democratização dos meios de comunicação, tão mal interpretada pela opinião pública (por razões óbvias, o oligopólio não quer abrir o debate e perder seus privilégios). É preciso romper com o poder hegemônico de poucas famílias tradicionais dominando há mais de cinco décadas, e viabilizar a pluralidade de mais informações por outros circuitos. Informação caminha ao lado da educação. Assim como é impossível construir um país mais justo sem mexer na estrutura agrária, que foi silenciada no debate. Cidades abarrotadas e milhões de sem teto e sem terra, enquanto poucos mantém seus privilégios com propriedades improdutivas e abandonadas. Só assim desincharemos as cidades e teremos alimentos mais saudáveis. De tabela temos ferrovias sucateadas, apenas funcionando para atender o agronegócio e a mineração, enquanto as pessoas não conseguem se locomover. Tudo seguindo uma lógica privada, em prejuízo do coletivo: ônibus e metrôs mais caros, atendendo poucos territórios, alvos de CPIs paralisadas. A saúde uma calamidade pública, sob intervenção terceirizada das organizações sociais.

O meio ambiente é outra questão urgente, que está umbilicalmente ligada ao agronegócio. O governo optou pelo imediatismo rentável, que explora indiscriminadamente a natureza. A falta de água, as mudanças climáticas, dentre vários outros sintomas já sinalizados pela mãe terra, não são frutos do além, mas das nossas ações. A soja e outras monoculturas, a agropecuária (principal agente do desmatamento), a mineração predatória, dentre outras prioridades da atual macroeconomia, além de incertas no longo prazo não caminham na direção da sustentabilidade. Pagaremos (já estamos pagando) o preço, se seguirmos pela ganância cega. Não vou nem entrar na questão das populações afetadas com esse modelo, se não daria outro artigo, sobretudo sobre a questão indígena. As possibilidades são muitas num país continental densamente povoado, basta pensá-las e ter vontade política. Podemos dar o exemplo ao mundo, como dizia Darcy Ribeiro, seguindo nossas identidades e potencialidades.

Mas a essência do debate atual é: o que há de ruim neste governo, é exatamente o que historicamente caracteriza o governo do PSDB. A relação com os grandes conglomerados, a busca do lucro em detrimento do bem coletivo. A associação aos patrões, sem ouvir os movimentos, sinidicatos e populações afetadas. O rentismo, que alimenta o capital parasitário. A natureza do PSDB e sua visão de mundo é contrária a qualquer proposta popular e democrática. Sempre viraram as costas aos países vizinhos e fora do eixo hegemônico, sendo subservientes às nações que promovem guerras e quase causaram o colapso do sistema mundial. Crise esta ainda em curso, cuja origem é a mesma da visão econômica dos tucanos. Cadeia privada e redução da maioridade penal é o que eles querem, uma sociedade entupida de pobres, em sua maioria negros e jovens, encarcerados. Falam em meritocracia, mas fizeram muito menos concursos públicos. Sempre estiveram ao lado dos mais fortes e mais ricos. Sua liderança é de uma velha oligarquia tradicional, assim como tantas outras atrasadas do Brasil. E privatizar tudo a preço de banana também é roubo do patrimônio nacional. Seu mote de campanha, no entanto, pode ser utilizado com coragem pelo governo dos trabalhadores: eficiência e transparência. Nisso o estado precisa avançar, independente de quem seja eleito. É preciso ter humildade e coragem, ninguém aguenta mais obra superfaturada.

Sou apartidário, coisa que os mais fanáticos não vão entender ao ler este artigo, mas vejo que o melhor caminho ao país é lutar pelo aperfeiçoamento do governo Dilma. Precisamos mudar, mas não com a receita da década de 90. Sair da crise, e não mergulhar nela. É preciso tornar o Estado mais democrático, estimulando a participação social, e aprimorar os mecanismos de combate à corrupção. Não é suficiente prender só um ou dois, e empresário também tem que ir em cana. Lugar de juventude pobre, em sua maioria negra, é na escola e não no cárcere ou cemitério. Basta de periferia tratada com armas, é um ciclo vicioso sem vitoriosos. Se não houver um resgate às raízes do PT e uma avaliação dos fenômenos sociais de massa, incluindo a conjuntura eleitoral, correm o risco de perder o bonde da história. Mexer nas estruturas, essa tem que ser a prioridade. Colocar as reformas em pauta, sobretudo a política, e ousar. Se a iniciativa não for interna, será à base de pressão externa.. Se não ocorrer, vão perder muito apoio, inclusive o meu. É preciso vencer o Aécio nas urnas, e a Dilma nas ruas após a próxima quinta-feira.

Foto: Reprodução da Internet.

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