Entrevistas

Evandro Teixeira no evento de fotografia Paraty em Foco. Foto: Marcelo Santos Braga.

“No Brasil não há nenhum jornal grande e importante que defenda as causas populares”, diz Evandro Teixeira

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Evandro Teixeira no evento de fotografia Paraty em Foco. Foto: Marcelo Santos Braga.

Evandro Teixeira no evento de fotografia Paraty em Foco. Foto: Marcelo Santos Braga.

Evandro Teixeira é uma figura mítica do fotojornalismo nacional. Trabalhou quase meio século no Jornal do Brasil, dentre outros veículos, onde imortalizou suas fotos durante a última ditadura militar no país. Sua imagem da passeata dos cem mil com uma faixa dos manifestantes dizendo “abaixo a ditadura – povo no poder”, em 1968, já foi utilizada em diversas publicações e circulou mundo afora. Baiano radicado no Rio de Janeiro há décadas, é também autor de diversos livros, como o Canudos 100 anos.

O Fazendo Media conversou com ele durante o evento Paraty em foco, realizado entre os dias 24 e 28 de setembro de 2014. Na entrevista Teixeira fala sobre a importância da democratização da mídia, a impunidade dos militares assassinos e torturadores da ditadura apesar da Comissão da Verdade, e suas impressões sobre as manifestações do ano passado, que ele acompanhou de perto. Para o fotógrafo, vivemos uma democracia disfarçada e nada indica melhorias nos próximos anos.

Você citou o Jornal do Brasil algumas vezes na sua fala durante o evento, e o JB assim como a Tribuna da Imprensa fechou nos últimos anos. Tem cada vez menos veículos de comunicação no Rio de Janeiro. Nesse contexto, qual a sua opinião em relação à democratização da mídia?

Na época em que eu estava no JB tínhamos 19 jornais no Rio, e hoje você tem apenas um grande jornal e outro menor, pequeno. Isso é complicado porque você fica sem alternativas de informação, o grande jornal do Rio fala aquilo que quer e entende. Acho que não tem volta, porque a cada dia os jornais estão se diluindo e a internet vem crescendo. O JB, por exemplo, foi um dos mais importantes e maiores jornais do país e lamentavelmente acabou, morreu. No Brasil não há nenhum jornal grande e importante que defenda as causas populares.

O jornalista Alberto Dines, que também esteve à frente do JB por muito tempo, fez uma entrevista nessa semana no Observatório da Imprensa com o Cláudio Guerra, ex delegado do DOPS durante a última ditadura militar. Ele assumiu publicamente que matou não sei quantos e delatou assassinos de várias pessoas. O que você pensa sobre isso, levando em consideração que a Comissão da Verdade está chegando ao seu prazo final para apresentação das investigações?

Foto de Evandro Teixeira na passeata dos cem mil, em 1968.

Foto de Evandro Teixeira na passeata dos cem mil, em 1968.

Não adianta, infelizmente é uma questão que não vai resolver. Não vai chegar a nada, porque nenhum militar será punido. Um ex-general que foi ditador na Argentina, por exemplo, morreu na prisão recentemente. No Chile foram todos condenados e presos, ninguém ficou impune. Aqui no Brasil você acha que vai acontecer alguma coisa? Não vai acontecer nada! Aquele coronel [Paulo Malhães], que tentou falar alguma coisa foi calado lá na Baixada Fluminense, mataram ele. Foi queima de arquivo, então nada vai acontecer. É um trabalho fabuloso, fenomenal, da Comissão da Verdade, mas será apenas uma coisa histórica porque nenhum militar será punido. Lamentavelmente não teremos essas verdades e prisões que desejávamos.

Você acompanhou os protestos no Rio de Janeiro no ano passado. Com a sua experiência na cobertura nos anos de chumbo, qual comparação faz com os dias de hoje?

Naquela época a gente buscava outras coisas, era liberdade. Hoje você está buscando situações diferenciadas, como saúde, educação e outras coisas. Naquela época todo mundo sabia que era uma ditadura, mas hoje é uma coisa disfarçada. Que liberdade e democracia é essa que vivemos hoje? Você não pode buscar essas alternativas de educação e saúde, é uma coisa que fica uma interrogação.

E o tratamento do estado, na prática, com a população durante os protestos?

Foto de Evandro Teixeira denunciando a repressão durante a ditadura.

Foto de Evandro Teixeira denunciando a repressão durante a ditadura.

Lamentável. Aquilo que eu estava falando com o Marcelo Carnaval [fotógrafo] agora, é claro que nada é dirigido para matar mas ele sabe que quem está trabalhando ali está identificado com camisa e capacete. Mas, de certa maneira, não estão respeitando nada disso. Tem policiais disfarçados de jornalistas, e a situação está complicada. Acho que a coisa está feia.

A fotografia está cada vez mais nas mãos do povo, graças aos desenvolvimentos tecnológicos. Enquanto fotojornalista, como você vê essa massificação das imagens?

Não existe direito autoral no Brasil, vejo direto usarem minhas fotos da ditadura, principalmente da passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro. Agora mesmo na campanha eleitoral não tenho condições de tomar conta, minhas fotos estão em cartazes de alguns partidos, não existe direito autoral.

Mas a inovação tecnológica para imprensa foi muito boa, essa modernidade ajudou muito. É claro que no sentido de fotografar de câmera, tem muitas câmeras e poucos fotógrafos. Nesse sentido é uma coisa complicada, porque você vai numa solenidade ou comício e vê uma centena de câmeras com apenas meia dúzia de fotos com qualidade. Essa situação é incontrolável, com a tecnologia e a modernidade tem o telefone celular que faz tudo e manda fotos aos jornais. Não tem como controlar isso.

Vocês fizeram um protesto durante o Paraty em Foco em defesa do fotógrafo Sérgio Silva, que ficou cego por conta de uma bala de borracha durante um protesto em São Paulo e perdeu sua ação contra o estado recentemente. Quais são hoje as principais reivindicações da categoria?

Precisamos nos proteger e cobrar das autoridades esse tipo de posicionamento, como foi o caso dele. Os fotógrafos de guerra lá no Iraque, Afeganistão, etc, onde morre muita gente, não têm como se defender. Mas aqui no Brasil tem que proteger, buscar alternativa, procurar as autoridades, protestar no sentido de proteção. Claro que essas manifestações não são como a guerra do Iraque, Vietnã ou Afeganistão, mas isso é o tipo de coisa que tem de ser cobrada e respeitada.

Mas além do Estado, como está a relação do fotógrafo com as empresas?

Evandro Teixeira também se destacou na fotografia esportiva, tendo a oportunidade de cobrir diversas Olimpíadas e Copas do Mundo. Na imagem o ídolo Ayrton Senna.

Evandro Teixeira também se destacou na fotografia esportiva, tendo a oportunidade de cobrir diversas Olimpíadas e Copas do Mundo. Na imagem o ídolo Ayrton Senna.

O câmera da TV Bandeirante [Santiago Andrade, que morreu durante um protesto por causa de um rojão], por exemplo, foi uma coisa bem polêmica. Uns perguntam por que ele não foi de capacete ou protegido, e outros questionam por que a empresa não deu proteção. Enquanto alguns falam que a empresa não deu proteção porque não quis dar, então é complicado. Esse tipo de coisa aqui no Brasil não é como você trabalhar nos Estados Unidos ou outras empresas grandes que te respeitam e sabem que é importante proteger o seu funcionário. Aqui nesse país ninguém tem respeito, ninguém respeita ninguém.

Como você avalia as eleições nos próximos dias?

Isso é complicado, não gosto de falar de política porque tenho meu posicionamento e não vou votar no PT. Eu era Lula doente, viajei com ele por todo o Brasil com a Caravana da Cidadania, mas hoje acho que a situação está complicada.

Mas independente da questão partidária, como você avalia essa insatisfação após as manifestações de massa e os possíveis caminhos do nosso país nos próximos anos?

Não tem como reverter essa situação no momento, acho que as pessoas estão buscando alternativas que são complicadas de superar. Esperamos que mude, mas vejo que está difícil.

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