Entrevistas

Jean Marc von der Weid em seu escritório na AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia. Foto: Eduardo Sá.

Jean Marc: líder estudantil durante o golpe fala sobre a ditadura e o atual governo

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Jean Marc von der Weid em seu escritório na AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia. Foto: Eduardo Sá.

Jean Marc von der Weid em seu escritório na AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia. Foto: Eduardo Sá.

No fim do mês passado completou 50 anos da última ditadura militar no país. Diversos meios de comunicação trouxeram elementos sobre o tema, que até hoje está em aberto no Brasil. Para contribuir com o debate o Fazendo Media entrevistou o economista Jean Marc Von Der Weid, uma das principais lideranças estudantis à época do golpe. Foi um dos militantes soltos no sequestro do embaixador suíço, antes de seu exílio. Atualmente é coordenador de Políticas Públicas da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) e membro da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), organizações vinculadas aos movimentos sociais do campo.

Na conversa a seguir ele resgata em detalhes o processo pré e pós golpe militar, trazendo à luz o movimento de resistência, sob a ótica das organizações estudantis então à frente das mobilizações, contra o regime imposto. Jean Marc também analisa as heranças desse modelo, critica a reforma agrária do atual governo e avalia a atual conjuntura em relação às manifestações nas ruas a partir de meados de 2013.

Você foi ao lado de Vladimir Palmeira uma das referências estudantis à época, participou da Ação Popular (AP), foi exilado. Pode nos rememorar um pouco essa caminhada?

Entrei na escola de química na Universidade do Brasil, hoje UFRJ, em 1964 no momento do golpe, logo depois de quase um mês em greve pela entrada dos chamados excedentes. Os alunos que tinham média para entrar, mas não tinha vaga. Uma das últimas coisas que o Jango assinou foi um decreto liberando a entrada deles na universidade. Eu era a favor do golpe, e fui me tornando crítico rapidamente. Tinha feito 18 anos em fevereiro, e uma militância secundarista. No dia do golpe andamos pela cidade, e assistimos cenas de grande brutalidade com oficiais atirando na população desarmada. Assisti a queima do prédio da UNE, onde não tinha ninguém resistindo.

Em 1965 as discussões foram retomadas na universidade: problemas de financiamento, funcionamento, o restaurante era uma merda, etc. Em 1966 comecei a participar nitidamente contrário ao regime militar, teve as manifestações estudantis que já eram o começo da greve contra a cobrança de anuidades, o movimento do governo para transformar a universidade pública em privada. Ocorreu a setembrada no país inteiro, que culminou no Rio com a ocupação da faculdade de Medicina na Praia Vermelha, que eu participei, durante 24h. A PM cercou, invadiu e desceu a porrada em todo mundo.

1967 é um ano meio intermediário, as mobilizações muito concentradas nas faculdades de Filosofia, no Caco, e na faculdade de Direito. Fui eleito presidente do diretório em agosto, em engenharia química, e me destaquei no movimento estudantil com uma pesquisa sobre a denúncia do acordo MEC (Ministério da Educação e Cultura) e USAID (Agência Americana de Desenvolvimento) para fazer a reforma universitária. Fui nesses lugares pegar informação, e os caras me deram tudo. Publiquei um documento pelo Centro de Estudos da faculdade de Química: “As anuidades e a privatização do ensino superior”. Concluía que efetivamente o objetivo era transformar num negócio.

Foi o único estudo do movimento estudantil sobre o tema, e acabou sendo republicado país afora sem me citar. Depois fizemos uma greve por questões internas da faculdade, e escrevi sobre as perspectivas profissionais do engenheiro químico. Descobrimos um mercado de trabalho estreito dominado pelas empresas multinacionais que praticamente sub-empregavam os profissionais e a maioria das pessoas trabalhava noutras áreas. No começo de 68 a faculdade com menos de 700 alunos sem nenhuma tradição de mobilização política estava ultrapolitizada. Essas correlações se debatiam no regime: multinacional, governo militar, interesses da ditadura, etc.

Ocorreram greves muito fortes, mas acabaram derrotadas: diretórios fechados, vários estudantes suspensos, desmobilização, etc. Tanto é que no começo de 1968 teve uma reunião do conselho da União Metropolitana de Estudantes (UME), que era presidida pelo Vladimir Palmeira, e a avaliação geral sobre as perspectivas de lutas no ano de 68, sobretudo do pessoal dele na dissidência do PC, conhecida como DI, era muito pessimista. Eu puxava outra posição: será um ano de porrada, tem que ter uma posição firme e mobilização em relação ao pagamento de anuidade. Perdi essa posição por um voto, mas já me tornei uma liderança.

No dia 28 de março de 1968, a ditadura civil militar assassinava o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto. Foto: Rebeliao.org.

No dia 28 de março de 1968, a ditadura civil militar assassinava o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto. Foto: Rebeliao.org.

No final do mês tem o assassinato do Edson Luiz e uma mobilização que eu participei intensamente. Na reunião do conselho do DCE/UFRJ veio a notícia. O corpo estava sendo levado à Alerj, e decidimos nos dispersar ficando alguém no campus para avisar os que chegassem. Mobilizamos as faculdades e propus parar todas as atividades culturais da zona sul da cidade, teatros e cinemas, denunciando o assassinato. Teve a ocupação da Alerj, e a própria passeata do enterro. Entrei na AP depois dessa morte. Acabei sendo conquistado pelo Luis Travassos, que era o presidente da UNE na época, e já tinha tido contato com o Luis Raul Machado, vice presidente, meu colega de infância no colégio. Mas a AP era muito fraca no Rio, então tocava a política estudantil sem orientação partidária.

Depois tem um período de refluxo do movimento. Na faculdade começamos uma mobilização em torno das verbas e vagas para a universidade. Nossos estudos indicavam que a ditadura vinha cortando as verbas, na perspectiva de sucatear para ficar mais fácil de privatizar. Começa essa briga por mais vagas, mais verbas e contra as fundações. Fizemos uma greve com um movimento de propaganda, e a faculdade ficou ocupada e mobilizada durante 35 dias. Acabamos ganhando a greve geral num conselho da UME. A turma que tinha mais poder no movimento estudantil, a DI, perdeu por um voto como tinha acontecido comigo antes.

Da greve saiu uma sequência de manifestações, e na terceira eu fui preso acusado de queimar um carro do exército. Depois houve uma assembleia geral universitária no teatro de arena da UFRJ, que invadiu a reunião dos diretores e obrigou o diretor e o reitor a discutir com os alunos. Houve uma invasão, e muitos pularam o muro do campo do botafogo e apanharam lá dentro. Foi o massacre do campo do Botafogo. No dia que eu fui preso éramos uns 5 mil estudantes, na assembleia da praia vermelha uns mil, e na embaixada americana não tinha 300, vai radicalizando e diminuindo. Na porta da embaixada alguém jogou pedra, e a polícia civil começou a disparar dispersando os manifestantes. Cerca de 50 estudantes se dirigiram ao Centro, começaram a fazer barricadas e virou depois a “sexta feira sangrenta”. A polícia chegou atirando e a população reagiu jogando coisas das janelas, passou de uma manifestação estudantil para uma insurreição popular. A polícia foi expulsa por objetos jogados dos prédios.

A porrada come até de noite, o exército intervém, a cidade tomada de gás lacrimogênio. Na semana seguinte teve a manifestação dos cem mil, a ditadura recua e resolve permitir pois não tinha ideia da dimensão daquele negócio. Sou uma das reivindicações da passeata. Foi tirada uma comissão para dialogar com o Costa e Silva, o que foi um erro cavalar do movimento estudantil. Evidentemente não tinha cem mil universitários na passeata, era uma passeata popular de revolta contra a ditadura liderada por estudantes. A comissão formada tinha dois estudantes, um padre e um professor. Só que ela trata de temas estudantis, vai para Brasília e não fala sobre liberdade política, uma agenda democrática, etc. Costa e Silva só admitiu a reforma universitária, formou um conselho sem a menor significação.

Teve a passeata dos 60 mil, também permitida, já num processo de descenso, e cinco dias depois fui solto pelo Superior Tribunal Militar. Meu advogado entrou com um pedido de queda de flagrante. Teve passeatas no país inteiro, em alguns lugares inclusive com números impressionantes: cem mil no Rio é uma coisa, mas 70 mil no Recife e 50 mil em Fortaleza é coisa pra cacete. Em vários desses lugares a AP era hegemônica no movimento estudantil, e como a principal reivindicação era a minha libertação meu nome foi projetado nacionalmente. Quando saio da prisão começa a proposta de eu fazer parte da chapa da nova diretoria da UNE, que seria eleita em outubro no 30º Congresso.

Passeata dos Cem Mil - 1968, Cinelândia, RJ. Foto: Espacosocialista.org

Passeata dos Cem Mil – 1968, Cinelândia, RJ. Foto: Espacosocialista.org

No segundo semestre de 68 o movimento estudantil prepara o Congresso da UNE, em Ibiúna (SP), com uma série de conflitos. Me condenaram quinze dias antes pela auditoria militar, embora tenha ficado claro que eu não tinha nada a ver. Fui para clandestinidade em São Paulo, onde participei do processo final de preparação: defendi uma posição derrotada de fazer o congresso aberto num conjunto residencial da USP, ao invés de clandestinamente numa fazenda. Era onde quase todos os congressistas chegavam dos estados. Chegou a ter uma assembleia com cerca de 400 estudantes do Brasil inteiro e a polícia não interviu, o que não quer dizer que não fossem cercar, atacar, prender, etc. O Congresso em Ibiúna mal começou e caiu, e eu fui preso. Como já estava condenado, dei outra identidade e disse que era estudante do Paraná. O governo de SP queria se livrar de nós o mais rápido possível, então o pessoal tinha que prestar depoimento e em seguida era mandado ao seu estado. Fomos num ônibus escoltado pelo DOPS do Paraná de SP a Curitiba. Chegando lá abri a porta de emergência e sai.

Voltei a SP e comecei a participar da rearticulação do 30º Congresso da UNE. Como a diretoria ficou esfacelada, sobraram só três diretores, cada um de uma posição. Propus a criação de uma comissão de reorganização do congresso com os candidatos a presidente das chapas, que estavam postas na candidatura, e passei a participar. O [José] Dirceu era um dos candidatos, mas estava preso. Era impossível reunir mil pessoas, então foram realizados congressinhos regionais e estaduais com número menor de delegados para o encontro nacional.

Presos 1240 participantes do Congresso de Ibiúna. Foto: Jornal do Brasil

Presos 1240 participantes do Congresso de Ibiúna. Foto: Jornal do Brasil

Isso já depois do Ato Institucional (AI-5)?

Até o AI-5 todos os congressinhos foram abertos, mas a maioria foi feito depois. O congresso nacional foi no Rio, sob responsabilidade da UME também ligada a DI. Vladimir também estava preso, e quem estava a frente era o Carlos Alberto Muniz, que foi vice prefeito do Eduardo Paes. Era cerca de 130 delegados vindo ao Rio e na véspera Muniz me contatou para dizer que não tinham local para realizar e seria suspenso. Assim a UNE ia para o espaço, porque já estava extremamente desunida, e a minha sensação era uma espécie de golpe porque estávamos ganhando por oito votos num balanço nacional de mais de 700.

Disse que tinha o aparelho para fazer, e levaria os caras ao congresso. Assumam a responsabilidade de rachá-lo, disse. Foi um blefe, mas consegui um sítio em Jacarepaguá. Mobilizei a base da faculdade com uns 30 carros, uma manobra espetacular pois em menos de 10 horas tínhamos tudo. No congresso cristalizou-se a minha vitória por 8 pontos contra o Dirceu. Minha diretoria foi curtíssima, porque fui eleito em março e em setembro estava preso. Fui levado a Marinha no Rio, na Ilha das Flores, e me encheram de porrada vários dias. Minha sorte foi ter ocorrido o sequestro do embaixador americano cinco dias depois, e os caras me largaram. Azar, por outro lado, é que os sequestradores não sabiam que eu estava preso pois tiraram o Travassos.

Fiquei preso até novembro de 1970, quando me mandaram ao Galeão onde fiquei até 15 de janeiro de 1971 e fui trocado pelo embaixador suíço. Era uma base pesada, comandada pelo [João Paulo] Burnier, um dos mais facínoras das forças armadas. Ele fez ameaças pessoais, dizia que se matassem o embaixador suíço me matava e “fica um suíço pelo outro” porque eu tenho dupla nacionalidade. De lá fui ao Chile, e começa meus anos de exílio até a anistia em 1979.

Governadores eleitos pelo voto direto em 1982, ainda sob regime ditatorial, e personalidades políticas que lideraram o movimento das Diretas. Foto: noticias.terra.com.b

Governadores eleitos pelo voto direto em 1982, ainda sob regime ditatorial, e personalidades políticas que lideraram o movimento das Diretas. Foto: noticias.terra.com.b

Nesse período já está o processo de redemocratização. Como você avalia essa transição e as negociações que foram feitas à época?

O processo que o [Ernesto] Geisel monta, muito bem descrito pelo Elio Gaspari em seus livros, é de desengajamento das forças armadas na responsabilidade pelo executivo simultaneamente à retomada do controle da hierarquia militar. Perceberam que sua hierarquia estava completamente descontrolada, os grupos de repressão mandavam mais que os generais, embora estes tivessem cumplicidade. Começou um processo de recolocar o regime na mão dos civis. Foi o que ele chamou de abertura lenta, gradual e segura. Mas a partir da anistia e da abertura, da reorganização partidária e liberdade de imprensa, final de 79 e começo de 80, gera um movimento que força os limites de abertura para além daquilo que o regime queria.

A campanha das diretas, apesar de não vitoriosa no ponto de vista formal, é a maior mobilização da história do país. O regime militar vai acuando, e criam as condições para o regime não emplacar sua sucessão. O Figueiredo queria fazer um presidente civil, mas perde politicamente duas vezes: não consegue emplacar o [Mário] Andreazza como candidato porque o [Paulo] Maluf ganha a convenção da Arena, que é a primeira rebelião dos civis com a direita política abandonando o candidato dos milicos, e no colégio eleitoral Tancredo ganha a eleição. Com a tropa do [José] Sarney se bandeando para o lado do Tancredo [Neves], o regime é derrotado. Tiveram uma sorte espantosa com a doença e morte do Tancredo, aí sobe o Sarney que do regime por oportunismo passa ao outro lado. Mas eles deixaram os chamados restos autoritários impregnados no país. Uma parte deles foi revirado na constituinte, mas apesar dela tem coisas que nunca foram mexidas: a estrutura política eleitoral do brasil, por exemplo.

O que você quer dizer com isso?

Fortaleceram os espaços eleitorais que eram mais conservadores: norte e nordeste, porque sempre souberam que perderiam no sul e no sudeste. O número de deputados é inteiramente desproporcional no norte e nordeste para o número de eleitores. Em SP precisava de 200 mil votos para fazer um deputado e no Acre de 10 mil, isso continua existindo. Nos rincões do interior, onde tem mais atraso político e ainda funciona certa política de cabresto. É uma herança desse sistema, que não foi virado porque uma vez criado você cria interesses: não dá para pedir a uma constituinte, onde os constituintes foram eleitos nesse sistema que eles se suicidem. Colocar uma proporção igual de eleitores e votos. Sul e sudeste dominavam o Congresso tranquilamente, e o senado não porque é um número fixo. É inteiramente desproporcional politicamente no Brasil a chamada bancada ruralista, que tem seus interesses diretamente vinculados ao setor mais reacionário do país. Não têm expressão política e econômica proporcional ao que eles conseguem de força eleitoral. Faz parte desse jogo em que você favorece as áreas mais atrasadas, e eles consigam botar mais gente no congresso.

"O processo de reforma agrária está longe de estar terminado", afirma Jean Marc. Foto: Eduardo Sá.

“O processo de reforma agrária está longe de estar terminado”, afirma Jean Marc. Foto: Eduardo Sá.

A questão da reforma agrária à época da ditadura, aliás, foi uma das principais bandeiras das reformas de base do governo Jango quando houve o golpe. Qual a sua avaliação hoje nesse campo em função da entrada e saída do regime militar?

A proposta de reforma agrária do Jango hoje não assustaria nenhum movimento social do campo nem ninguém: desapropriação de uma faixa de terra ao longo das rodovias federais. Era um negócio não diria patético, mas muito limitado. Embora tenha servido de estopim e pretexto para uma mobilização da direita e setores mais reacionários do latifúndio para demolir o regime. Continuam tendo expressão na bancada ruralista, que é menos latifúndio no sentido tradicional da palavra e mais agronegócio. Ainda são interesses oligárquicos de grande porte e muito peso.

A reforma agrária avança a partir do governo Itamar, o governo FHC dá um empurrão e o governo Lula seguiu mais ou menos o mesmo padrão. Não tem grandes alterações no número de assentados, na forma de fazê-los e nos seus modelos de produção. Já a Dilma derruba o processo de reforma agrária de um patamar que já não era um espetáculo. Reduziu a distribuição de terra a uma coisa marginal, explicitamente expressa pelo governo: vamos somente resolver situações de conflito, o essencial da reforma agrária foi feito e agora é fazer andar os assentamentos.

Mas o processo de reforma agrária está longe de estar terminado, inclusive porque tem um ciclo vicioso negativo pois, apesar do esforço de distribuição de quase um milhão de novas propriedades em 16 anos, o número total de agricultores cresceu pouco porque muita gente saiu do campo. Tem gente sendo assentada e gente saindo do campo, são cerca de 250 mil e não 1 milhão. O potencial de propriedades agrícolas é muito maior, os agricultores saem por falta de condições. Então continua sendo o mesmo problema: o modelo de desenvolvimento que o governo adotou para os assentamentos é um fiasco, inclusive para agricultura familiar. Essa é a nossa briga política o tempo todo com o governo, seja FHC, Lula ou Dilma, mudar o padrão de desenvolvimento. Se mantiver como está, o campo esvazia.

Esse padrão de desenvolvimento pode ser considerado também herança da ditadura?

De certa forma é, porque quem fez o processo chamado de modernização da agricultura brasileira foi o regime militar. Inclusive forçando o latifúndio a se modernizar meio que na marra. É verdade que tinham muito mais fatores de atração, no sentido de favorecer crédito quase de graça, assistência técnica, pesquisa, toda uma série de elementos que favoreciam o processo de modernização entendido como aumento do uso de adubo químico, agrotóxicos e sementes melhoradas. Esses são os indicadores de modernidade, e o regime militar fez isso poderosamente subsidiando com muito dinheiro esse processo e muito maquinário também.

Jean Marc no Seminário Internacional Tempo de agir por mudanças radicais: Agricultura familiar camponesa e agroecologia como alternativa à crise do sistema agroalimentar industrial, na Cúpula dos Povos (RJ). Foto: Reprodução.

Jean Marc no Seminário Internacional Tempo de agir por mudanças radicais: Agricultura familiar camponesa e agroecologia como alternativa à crise do sistema agroalimentar industrial, na Cúpula dos Povos (RJ). Foto: Reprodução.

Além dessas heranças, que outras questões podem ser elencadas? Na economia, por exemplo, foi propagandeado o milagre econômico.

A análise econômica é mais sútil do que pode parecer. Tem um primeiro momento com o governo Castelo Branco, que é muito pró capital multinacional, e depois uma espécie de nacionalismo militar no tempo do Geisel com o estado intervindo muito. Não é anti-imperialista nem anti empresa multinacional, mas joga pesado para favorecer determinados setores de ponta da indústria nacional. Criam proteções do ponto de vista da produção nacional. Tanto é que o Brasil sai do regime militar com um nível relativamente baixo no processo de internacionalização e abertura macroeconômica. Isso persistiu até que o Collor dá uma cassetada a mais. Com todas as acusações de neoliberalismo, também não há grandes modificações nesse período se for pensar no ponto de vista de estrutura do capital no Brasil.

A exportação aumenta, mas muito em cima de commodities. O mercado interno ainda é uma força muito grande dentro da economia brasileira, então a chamada internacionalização da economia não se altera tanto nesse período de ditadura e pós ditadura. Nem no governo Lula, se mantém no patamar do governo Fernando Henrique. Várias das políticas adotadas pelos militares e pelo FHC, tipo o fortalecimento de algumas empresas com os recursos do BNDES, continuam.

As alterações maiores se deram por pressão social, a capacidade de negociação dos movimentos sindicais muda radicalmente. Na ditadura você tem um largo período de paralisia, um suspiro em 68 com as greves de Osasco e Contagem rapidamente esmigalhadas, e depois tem 78 nas greves do ABC com o Lula. Então desponta o processo de abertura, ainda assim com muita repressão, fechando sindicato, a prisão de lideranças, mas sem aquele nível de porradaria. Você tem uma recomposição do poder do movimento sindical, um fator redistributivo que começa a acontecer por pressão social. Isso é meio disfarçado na fase de inflação muito alta, e se recupera no período FHC pela estabilização da moeda.

Há recuperação significativa do poder de salário, e essa pressão é um fator de apropriação de recursos da riqueza pelo setor produtivo. No governo Lula há pela primeira vez uma política de estado dirigida à redistribuição de renda, e por isso menos mobilização social com aumento do salário mínimo acima da inflação, garantia de empregos, etc. Onde o emprego não alcança tem os benefícios sociais como o Bolsa Família. É um longo período de efetiva política estatal de redistribuição de renda, mas ainda somos um país boçalmente desigual. Apesar de FHC e muito do Lula favorecer certo processo redistributivo, ainda é um país com monstruosa concentração de renda.

Contraditoriamente a esse cenário, no ano passado tivemos mobilizações de massa nas ruas como nunca visto nas últimas décadas. Apesar de o governo estar redistribuindo mais, foi nesse momento que as pessoas foram às ruas com várias reivindicações.

As manifestações no ano passado ainda têm que amadurecer muito para vermos seu significado, mas são manifestações de questionamento à qualidade de vida. Não tem a ver mais com o básico, não são os setores mais fodidos que estão se manifestando. É fundamentalmente uma emergente classe média que está reivindicando uma melhor qualidade para aquilo que ela é capaz de gastar. Serviços básicos que o estado tem que oferecer: segurança, ensino, saúde, transporte, saneamento, etc, que são precaríssimos.

Mas avançando nessas reivindicações, mexendo nas estruturas, há risco de um retrocesso de uma ditadura? A correlação de forças atual não remete a nenhuma hipótese nesse sentido?

Não vejo isso. Para uma reação de caráter golpista precisa de um nível de explosão social e ameaça de instabilidade institucional muito forte, que não necessariamente implicaria num golpe. Pode gerar uma política mais repressiva do estado, e precisa de uma série de outros componentes. Milico não se mexe sozinho, por exemplo, os militares de 64 não deram um golpe do nada com uma sociedade civil contra eles. Parte da elite do Brasil queria o golpe, por isso hoje estão corrigindo e dizendo que foi um golpe civil e militar. Tinha uma forte demanda da elite econômica e social, que se sentia ameaçada. Hoje não, mas se houver uma mobilização que provoque esse tipo de insegurança certamente esse setor envolverá os militares numa conspiração.

Outra coisa é os militares se sentirem ameaçados, o que não existe. Há um desconforto enorme nas forças armadas com todas as tentativas de revisão histórica sobre o seu papel, elas nunca assumiram que fizeram merda. Continuam dizendo que fizeram o que tinham de fazer, tanto para dar o golpe quanto depois meter a porrada, embora não publicamente. Até os que na época bateram palmas hoje querem se desligar desse vínculo histórico, haja vista a Folha de São Paulo, O Globo, etc. A mídia que clamou pelo golpe àquela altura, hoje mete a porrada no golpe e nas forças armadas.

Nos momentos de tensão entre executivo e forças armadas o executivo botou o galho dentro. Até porque o movimento contrário de opinião é muito forte, então os milicos ficaram mais discretos nas manifestações mais ostensivas. Hoje só os clubes militares comemoram o dia 31 de março, não são as forças armadas oficialmente mas falam o que os caras pensam. A não ser que chegasse a um ponto, dificílimo de acontecer, de o Congresso, por exemplo, revogar a lei da anistia ou o Supremo decretar, coisa que já disse que não pode mexer. O congresso teria de dizer que não vai ter mais aquela lei e quer ver quem é responsável pelo golpe, tortura, assassinatos, desaparecimentos, etc. Talvez nessas circunstâncias houvesse, mas tenho dúvidas se eles teriam retaguarda para dar um golpe.

A Anistia Internacional está com uma campanha pela revisão da lei da anistia e punição aos torturadores.

Minha mãe era presidente do Movimento Feminino pela Anistia, e estavam fazendo uma campanha para que a anistia fosse estendida aos soldados e marinheiros cassados e o exército e a marinha não deixavam passar de jeito nenhum. Defendia que eles fossem reintegrados ou aposentados, e não queriam saber. Na constituinte algum deputado levou essa proposta, e minha mãe teve uma conversa com o FHC e o Mario Covas, então senadores, e os dois responderam: se essa proposta passa os brucutus vão para a rua. Então o nível de pavor era esse, e não votou. Com a lei da anistia no final do governo FHC esses casos passaram a ser tratados, teve gente aposentada e promoções, mas até então a legislação não dava nada para isso. A capacidade de intimidação que os milicos têm em cima do poder civil é muito grande. Nessa Comissão da Verdade esperneiam, mas mesmo com coisas inesperadas como a desse coronel que veio a público contar detalhes mais bárbaros que os caras faziam e compromete deus e todo mundo os militares ficam quietinhos e não falam nada.

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