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Vaticano realizou o Sínodo das Famílias com o tema: “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. Foto: Operamundi.

Agito das estruturas romanas

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Vaticano realizou o Sínodo das Famílias com o tema: “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. Foto: Operamundi.

Vaticano realizou o Sínodo das Famílias com o tema: “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. Foto: Operamundi.

Por Fábio Py Murta de Almeida e Marcos Vinicius Freitas de Freitas,

De 5 a 19 de outubro de 2014, o Vaticano realizou o Sínodo das Famílias com o tema: “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. O evento consistiu na reunião de bispos, padres e leigos com o intuito de discutir pontos doutrinários ou temas pastorais, a exemplo da homossexualidade, divórcio, segunda união, pedofilia, poligamia, dentre outros assuntos acomodados no advento da modernidade.
Na preparação ao sínodo, o Papa Francisco enviou a todas as dioceses do mundo um questionário com 38 perguntas para que as paróquias pudessem discutir e enviar suas respostas até janeiro de 2014. No Brasil, as dioceses nesse período mobilizaram leigos, padres e bispos para discutir as perguntas e mandar as respostas à CNBB que então compilaria os dados e mandaria ao Vaticano. Com a metodologia, as discussões não ficaram restritas ao episcopado que sempre atualizou os espaços de deliberação católica afirmando a sã doutrina. Por exemplo, a diocese de Uberlândia, no dia 11 de janeiro, reuniu membros da pastoral familiar, pastoral da criança, movimento carismático, focolares, além de outras expressões católicas para responder as perguntas do sínodo.

O Sínodo

No sínodo estiveram presentes 253 participantes membros do clero, além de representantes de todos os continentes e mais 68 leigos participantes entre solteiros e casais. A partir das divergências de opiniões, era possível perceber que os sinodais dividiam-se entre conservadores, moderados e progressistas. Ao convidar os membros da comunidade católica de outros continentes, o Papa Francisco quebrou o monopólio eurocêntrico, comandado por tradicionalistas, abrindo a possibilidade de que outras experiências católicas pudessem ser envolvidas no órgão consultivo do sínodo.

A opção do Papa Francisco, no transcorrer do encontro, foi pela colegiabilidade. No próprio ato da abertura, o Pontífice pediu para que as pessoas expressassem suas opiniões livremente, sem medo de qualquer forma de censura. E, na medida da possibilidade do embate de visões, Francisco atinge a finalidade de a partir de novos testemunhos e pontos buscar uma nova base para construir uma “nova mentalidade” eclesiástica sobre a família. A ideia de circular com as experiências dos membros da comunidade católica possibilitaria à Cúria oferecer respostas às dificuldades pastorais e doutrinárias acerca dos temas da família moderna.

Claro, para a ala conservadora, representada pelo Cardeal Burke e o Cardeal Muller, essa situação não seria confortável, pois se permitiu a discussão livre abrindo a possibilidade de pensar novas bases sobre o enfoque familiar da igreja. Abrindo-se a possibilidade de questionar o sistema doutrinal, e, quem sabe ao longo do tempo gerar mudanças dogmáticas baseadas na horizontalidade das discussões – valorizando-se o laicato e o diálogo com o mundo moderno. Portanto, a atuação dos conservadores deu-se no sentido de não permitir nenhum tipo de triz reformatório, pois assim manter-se-ia o sistema como está: imóvel. O desejo dessa ala era que o sínodo reproduzisse o pensamento enfadonho do Papado de João Paulo II (1978-2005) e Bento XVI (2005-2013) quando eram hegemônicos.

Assim, já na solenidade o Papa Francisco, ao permitir as discussões, os debates, o ouvir e a captação das experiências em torno de temas tabus para os cristianismo católico, considerando que posturas intolerantes (como as defendidas pelos tradicionalistas) sejam revistas no interior da Igreja, na perspectiva de que deem espaço ao acolhimento do outro. Nutrindo-se a ideia de que o “diferente” pode-se passar a ser ouvido, ser atuante e influenciar nos segmentos católicos.

Debates

Por isso, não se pode dizer que o sínodo foi construído sobre o ambiente amigável, e nem com poucas expectativas no alto da Cúria. Por exemplo, o ápice das divergências deu-se em torno da mudança doutrinária que permitiria casamentos de segunda união receber a comunhão. O cardeal alemão Kasper falou e escreveu favoravelmente à mudança da posição da não aceitação de divorciados, alegando que as comunidades católicas conseguiriam acolher melhor essas pessoas e ainda evitaria que optassem por outro sistema religioso. A contraposição da visão foi levada pelo cardeal Muller (prefeito do ex-Santo Ofício e próximo do Papa emérito Bento XVI), Burke (prefeito da Assinatura Apostólica), Cafarra (arcebispo de Bolonha), Branmuller, De Paollis e o arcebispo de Milão, Scola; quando o grupo em um escrito pouco anterior ao sínodo defendeu a manutenção da tradição, justificando que a Igreja não pode aderir às pressões da modernidade, do laicismo ou de mentalidades pouco cristãs. Pode-se dizer que tal ala conservadora não olha para as circunstâncias históricas de suas comunidades, mas, sustenta posições que pouco se inserem na pastoral na prática real dos problemas que envolvem as famílias.

Isso mostra que antes do evento havia uma intensa movimentação das alas vaticanas, principalmente dos conversadores avessos a qualquer apoio a divorciados e a coabitações. Esse foi o motivo pelo qual os quatro cardeais conservadores produziram um livro às vésperas da cúpula sinodal intitulado: “Permanecer na verdade em Cristo”. Nele, assinalaram ser inadmissível a participação de divorciados em segunda união na Eucaristia. O livro foi uma tentativa de responder às ações do papado reverberadas pelo cardeal Walter Kasper, a partir de fevereiro e no próprio consistório quando afirmou que, após um período penitencial, ao fiel deveria admitir-se a comunhão aos divorciados em segunda união. Também foi uma critica velada ao Papa Francisco por permitir a possibilidade dessa mudança.

Na ocasião da apresentação de fevereiro, o Papa Francisco apoiou o cardeal Kasper, pois em seu ponto havia a atitude do acolhimento em completa consonância com o amor da Igreja e a mensagem cristã de misericórdia pelo outro. Essa fala de Kasper gerou, além do livro, a possibilidade de reafirmá-las nas primeiras palavras do consistório. Quando o cardeal Kasper voltou à fala, contudo, nesse caso, na forma de aula. Óbvio que a ala conservadora levantou-se, protagonizando debates.

Além disso, conta-se que um grupo de conservadores numa operação sem precedentes foi até o papa emérito Bento XVI, no mosteiro Master Ecclesiae – onde habita. No encontro, tentaram envolver Bento XVI sobre o que seria debatido no Sínodo, para causar uma divergência ou até um rachar na Igreja. Nesse caso, o interessante foi á resposta de Bento XVI: “Eu não sou o Papa. Não me procurem”. Interessante que antes desse posicionamento, o próprio Bento XVI havia enviado reservadamente um bilhete para o papa Francisco, de forma colaborativa. E, diante dos conservadores, ele apenas notificou sua posição de “Cum Pedro e sub Petro” – sempre com a visão de apoiar Francisco. Embora, Bento XVI participou da missa de encerramento do sínodo mostra que houve o incomodo com as discussões, mostrando que a instituição católica esteja dividida, e que, em torno desses temas, grupos competem em prol dos cargos diretivos.

O caminho do evento

Embora o Sínodo da Família já tenha terminado com um texto pouco contundente sobre as segundas uniões, divorciados, ou sobre acomodação dos grupos GBLTTT, percebe-se o caminho do Papa de tentar traçar uma Igreja não mais tanto das estruturas, mas da forma de “colegiados” por meio das assembleias, das discussões e do consenso entre as partes. Como o Papa Francisco ditou o caminho desde a convocação do sínodo (o mais agitado desde o Concilio Vaticano II) é notório que seu governo religioso quer se fazer mais dialogal entre as partes do catolicismo romano, desde leigos até os altos cargos da Cúria. Agora a expectativa é de como esse texto final será levado e interpretado pelos representantes que participaram do sínodo para as paróquias a fim de perceber como tal encomenda mais dialogal aloca-se no catolicismo romano, e como essas comunidades organizaram-se para a segunda etapa do sínodo marcado para outubro de 2015 no qual sairão as resoluções finais dos debates.
Em todo caso, se aguarda o final do mês quando haverá um novo evento do catolicismo sobre a atuação católica nos movimentos sociais. Nesse sentido, espera-se ecumenicamente que o “Espírito de Francisco” ajude a sacudir as bases da atuação da fé católica no Mundo, que ao longo dos anos vem somando um decréscimo nos países chaves de sua atuação pelo distanciamento dos membros do clero e as comunidades.

(*) Fábio Py Murta de Almeida é doutorando em Teologia pela PUC-RJ, com estágio sanduíche no Ecole dês Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS-Paris).

(**) Marcos Vinicius Freitas de Freitas é professor do Curso de Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).

Referências da internet:

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536252-o-vaticano-censura-as-minorias-cardeal-mueller-ataca-o-papa#.VD-En5TjMlA.facebook

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536442-a-vitoria-de-francisco-no-sinodo-dos-bispos-uma-igreja-do-dialogo-artigo-de-alberto-melloni#.VEJV_aCHLg0.facebook;

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/533715-mueller-e-a-questao-da-segunda-uniao-estas-teorias-sao-radicalmente-erroneas;

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536464-termina-o-sinodo-2014-um-texto-mais-meditado-e-as-duas-decisoes-do-papa#.VEN_Sd3oAiY.facebook ;

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536471-ratzinger-rejeita-o-cerco-dos-conservadores-eu-nao-sou-o-pontifice-quem-decide-e-francisco#.VETS3SE7VkY.facebook;

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536475-o-papa-quer-reformar-mediante-o-consenso-entrevista-com-marco-politi#.VETTZs07rao.facebook;

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/190536-gays-tem-qualidades-para-oferecer-afirma-vaticano.shtml;

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