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Robin Williams, um herói cômico

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robin williansRecebo com pesar, tristeza a notícia da morte do ator e comediante Robin Williams. Ator que trás para si uma quantidade de títulos e belas interpretações. Várias delas marcaram minha vida. Posso contar os filmes que assisti, seus temas e o que despertaram em mim cada qual. Impossível, não lembrar de: “A sociedade dos poetas mortos” (1989), ou “Patch Adams – O Amor é Contagioso” (1998), ou de “O Homem Bicentenário”(1999). São três, entre os tantos filmes, que sua brilhante carreira de ator contabilizou. Também, não posso esquecer algumas de suas falas zombando do Brasil de forma tão estereotipada. Afinal, ninguém é perfeito. Mas, não posso negar que aquele olhar triste sempre incomodou, causando vontade e repulsa em assisti-lo.

Lembro especialmente de um filme dele que marcou: “Patch Adams”. O vi uma centena de vezes ao longo da vida. Filme não tão explorado com prêmios. Destaco por que mexeu comigo a ideia do palhaço. Daquele que luta e cultiva risos. Na verdade, me incomoda. No filme, retrata um médico que trouxe à cena junto aos tratamentos dos pacientes a importância do riso e das brincadeiras. No recorte do filme trás um sujeito mais velho, que com uma vida tão sofrida e problemática acaba de entrar na faculdade de medicina sem maiores dificuldades por ter inteligências acaba por estudar pouco. Indo além, transpõe as avaliações e os tétricos critérios científicos nos tratamentos, descobrindo o valor do riso e das brincadeiras para ajudar nos tratamento dos pacientes. Assim, no momento das maiores dificuldades do humano, no hospital, às vezes lutando sem forças pela vida, o sorriso melancólico pode transpor obstáculos.

Não quero me deter no filme, mas, apenas destacar seu olhar, sua atitude. Por algum motivo ele me trás a lembrança do primeiro livro de Ernst Bloch, o Espírito da Utopia (de 1918). No livro se tem um capítulo retirado da primeira edição chamado de “O herói cômico”, dividido em duas partes-temáticas. A primeira do herói cômico-melancólico, um Dom Quixote, e, a segunda temática da teoria do drama, onde demanda o “herói sério”. Bloch pensa o herói sério como chato, perfeito, e, completamente, vazio. Mas, para o filósofo místico, o cômico é quem trás o reflexivo. Ele percebe por completo a tragédia da vida. E, ela o consome. O engole. Por isso, para Bloch há nele um “jogo amargo o trágico. Já foi dito, é verdade, que os homens trágicos estão já há muito tempo mortos antes que falecem” (p.77).

Retomo, ao luto que me toma a Robin Williams, me levando a vê-lo como herói cômico. Quando na sua triste função das brincadeiras, piadas e gestos eram de nos caricaturar. Fazia-nos ri – até de nós mesmos. Mostrando nossa tragédia cotidiana. Sim, havia algo a mais naquele olhar melancólico. Algo de heróico. Tinha um olhar decifrador, que o consumia – por vê mais que nós. Um pouco além do horizonte – dos limites postos. Na sua retina espelhava com mansidão pasmada do nosso mundo. E, ela, o torturava, entre os limites do corpo para como herói de um mundo caído nos mostra a merda de vida que sustentamos.

Assim, obrigado Robin Williams, por como um herói cômico nos mostrar como nossa vida é injusta, cruel – mais parecendo uma ruína que trás apenas o pior do homem. Obrigado por nesse estágio nos mostrar que o riso nos alivia o peso da vida.

Bibliografia:
Ernst Bloch, L’esprit de l’utopie, Paris: Gallimard, 1977.

Referências da internet:
http://hashtag.blogfolha.uol.com.br/2014/08/12/academia-de-hollywood-fez-a-mais-tocante-homenagem-a-robin-willians/?cmpid=%22facefolha%22;
http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2014/08/fas-homenageiam-robin-williams.html

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