......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



14.10.2006
MST ENFRENTA O CONSERVADORISMO GAÚCHO

Por Alvaro Andrade, de Porto Alegre

O Rio Grande do Sul acompanha nas últimas semanas a marcha do MST que percorre o interior do Estado e se dirige ao município de Coqueiros do Sul, na região norte. Vinte e cinco anos depois da conquista da Fazenda Annoni, nos primórdios da luta agrária brasileira, três colunas formadas por quase dois mil sem-terra se encaminham a mais uma batalha. É a maior mobilização do movimento gaúcho desde a década de 80, quando após sucessivas invasões, foi desapropriada uma das maiores fazendas do estado. Desta vez o objetivo é a Fazenda Coqueiros, com sete mil hectares e não por acaso localizada ao lado da antiga Annoni. Segundo o MST, o latifúndio pertencente à família Guerra ocupa 30% da área do município e gera empregos para apenas 15 funcionários temporários. O movimento deseja ver a área transformada em um assentamento para 450 famílias. A proposta para desapropriação da área está em curso no INCRA, que já sinalizou a intenção de promovê-la.

Até aqui, as mobilizações incluíram a ocupação de uma praça de pedágio na BR 386 e do prédio do INCRA em Porto Alegre, além das atividades de rotina nos municípios pelos quais a marcha passa, com palestras e debates acerca da reforma agrária. A fazenda já foi invadida outras quatro vezes. Neste momento, as três frentes que se dirigiam até a Coqueiros estão acampadas em diferentes regiões em razão de uma decisão judicial que determinou a proibição do ingresso da marcha na comarca de Carazinho. O despacho considera que "o direito de ir e vir não pode servir de escudo para atos ilegais, como a invasão de uma propriedade" e ainda leva em conta "o risco eminente” de confronto entre manifestantes e ruralistas. Acontece que a bem da ostensiva guarnição feita pela PM, latifundiários vizinhos a Fazenda em foco, prestam solidariedade e montam piquetes, seguindo a arcaica tradição de "fazer justiça com as próprias mãos". Montados a cavalo ou em luxuosas camionetes, munidos de rádios e binóculos, monitoram a movimentação dos sem-terra e aumentam o clima de hostilidade.

Mais do que um ícone da reforma agrária, a luta por esta propriedade envolve um enfrentamento à cultura de certas castas sociais do Rio Grande. Aos que desconhecem os costumes do gaúcho arraigado, tradicionalista e preconceituoso, traço um panorama com algumas características que ajudam a compreender este perfil que bravamente é desafiado pelo MST.

Os últimos caudilhos
No referendo que consultou a população para o desarmamento em 2005, o Rio Grande do Sul registrou o maior índice percentual contrário à proposta: 86,83% e foi o segundo em números absolutos. O culto à virilidade e hombridade do gaúcho se expressam nas formas mais primitivas, que pode ser sintetizado pelo bordão do "gaúcho macho". O bairrismo e a exaltação à tradição carregam muito mais que o orgulho pelas histórias de luta das Revoluções Farroupilha e de 1930, extrapolando para um perigoso senso-comum que traz consigo preconceitos velados e atitudes autoritárias. Não é a toa que o Brasil já teve a disposição os ‘nobres’ préstimos de três ditadores gaúchos durante o governo militar, além do precursor de todos eles, Getúlio Vargas. A história registra o que há em comum no perfil destes homens.

Preconceito social
O MST no Rio Grande do Sul enfrenta de forma heróica as oligarquias do agro-negócio, um judiciário comprometido com os interesses elitistas e agora um Governo do Estado, sob administração tucana que extinguiu o Gabinete da Reforma Agrária. Ao longo dos anos, o movimento sofreu com a mão pesada das forças policiais, sempre de prontidão para debelar e fazer cumprir a todo custo, decisões judiciais de desocupação e reintegração de posse. Porém ainda mais violenta é a cobertura que é feita pela mídia empresarial. As matérias, editoriais, artigos e espaços destinados ao tema são eficientes em destacar as garantias constitucionais de direito à propriedade e de manutenção da ordem, mas convenientemente deixam de repercutir e questionar a necessidade da reforma agrária. Esse somatório de situações constitui-se em uma verdadeira cruzada que têm o único objetivo de criminalizar e desmoralizar o MST perante a opinião pública, que por sua vez já incorporou as expressões "baderneiros" e "bando de vagabundos" ao se referir aos homens e mulheres que compõe as fileiras da luta pela distribuição de terras.

Neste ambiente hostil o MST gaúcho não esmorece, ao contrário, resiste e se mostra disposto a resgatar a garra de lutas de outras épocas para novas batalhas. Nas próximas semanas será preciso atenção para que a dita “manutenção da ordem” não ultrapasse os limites, e que a truculência exigida pela paternalista e conservadora sociedade gaúcha não se reflita em atos de opressão e violência contra famílias que apenas lutam por igualdade.

Movimento representado
Dionilso Marcon é pequeno agricultor assentado, integrante do MST e Deputado Estadual pelo PT. É um dos grandes representantes do movimento, portador de uma defesa contundente de quem vive na prática a experiência da reforma agrária no contexto do Rio Grande do Sul “aqui podemos comparar os dois modelos agrários existentes: um baseado na concentração de terras e no latifúndio, representada pela fazenda Guerra. O segundo modelo assenta-se nos pilares da reforma agrária, representada pela fazenda Anoni, ocupada em 1985.” O deputado fala do viés desenvolvimentista que a desapropriação representa “o fim dos latifúndios representa um leque de oportunidades sociais e econômicas para as famílias acampadas e para o fomento do desenvolvimento de toda uma região. Mais de 23 prefeitos assinaram documento favorável à desapropriação imediata dessa área.” Sob o lema “um pé na luta, outro no parlamento”, Marcon é um expoente político de peso e uma “pedra” enorme no sapato dos barões gaúchos “todos sabem que o latifúndio concentra o lucro e a renda em seus proprietários, que aumenta a desigualdade social, que estimula o êxodo rural e aumenta a disputa do mercado de trabalho nos grandes centros urbanos, gerando mais desemprego”.


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