Militares tentam censurar telenovela

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Em plena discussão acirrada sobre a formação de uma Comissão da Verdade, uma telenovela, “Amor e Revolução”, que aborda os chamados anos de chumbo no Brasil – período iniciado depois da derrubada do presidente constitucional João Goulart com a instalação de uma ditadura a partir de abril de 1964 – está provocando uma dura reação dos setores militares, inclusive com a elaboração de um abaixo-assinado pedindo ao Ministério Público a suspensão da teledramaturgia criada por Tiago Santiago.

No final de cada capítulo militantes que foram presos e torturados pelo regime prestam depoimentos, bem como alguns militares que tiveram participação ativa no período como o ex-ministro Jarbas Passarinho e o Major Curió, acusado de cometer assassinatos de combatentes já presos e desarmados. Os ex-ministros José Dirceu e Valdir Pires já prestaram depoimentos que devem ir ao ar.

Uma companheira de cela de Dilma Rousseff

Uma das ex-presas que prestou depoimento contando em detalhes o que passou no Presídio Tiradentes, a jornalista Rose Nogueira, companheira de cela, no início dos anos 70, da atual presidenta Dilma Rousseff, foi a que até agora provocou maior impacto. Não está confirmado um possível depoimento da presidenta brasileira, que toda vez que tem oportunidade menciona as companheiras de cela em São Paulo, que foram até convidadas para a sua posse em 1º de janeiro em Brasília.

“Amor e Revolução”, que está sendo apresentada por um canal de média audiência, o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), mostra cenas de tortura, suspense, perseguições e tiroteios entremeadas de cenas românticas. A novela levanta também discussões sobre as mudanças comportamentais na década de 60, como a libertação da mulher após a pílula, o feminismo, o movimento hippie, e tudo isso entrecortado por músicas de Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que marcaram época e até hoje seguem apreciadas pelas novas gerações.   Cada capítulo da telenovela tem um custo de 200 mil reais, segundo o SBT. 

Fora um seriado com alguns capítulos sobre o movimento estudantil na década de 60, que foi ao ar nos anos 90, a televisão brasileira nunca tinha mostrado uma telenovela sobre a violenta repressão que se abateu sobre o povo – cujos responsáveis foram anistiados em setembro de 1979, ainda na ditadura, sendo a legislação confirmada recentemente pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a instância máxima da Justiça brasileira.

Polêmicas políticas

Embora com uma audiência por enquanto limitada, se comparada ao do principal canal brasileiro, a Rede Globo, a telenovela tem provocado polêmicas políticas apaixonadas. Em resposta ao abaixo-assinado dos militares, que começou a circular antes mesmo da telenovela ir ao ar, outro abaixo-assinado apareceu na internet, em apoio à transmissão de “Amor e Revolução”. Os signatários afirmam que “o que esses militares estão tentando fazer e o que já fizeram, criando o tal abaixo-assinado, é um ato de censura e que não cabe em um país que se diz democrático”.

Em outro trecho da resposta aos militares, os signatários assinalam que “o tempo da ditadura já passou e as consequências de tal período foram muitos mortos, muitas pessoas com sequelas terríveis, tanto físicas quanto mentais e famílias que ainda choram seus parentes desaparecidos e assassinados”.

O abaixo-assinado finaliza enfatizando: “chega dos militares quererem mandar, dar opinião em tudo que toque a eles! Chega do dedo militar nos programas televisivos, apontando o que deve e o que não deve ser passado na TV brasileira!”.

Já os militares acusam, sem provas, o governo Dilma Rousseff de ter entrado em acordo com o SBT para a apresentação de “Amor e Revolução” em função da criação da Comissão da Verdade. O autor da telenovela, Tiago Santiago, não só nega a acusação, explicando que o tema em questão foi por ele proposto ao SBT bem antes de a Comissão da Verdade entrar na pauta de discussões, como respondeu ao abaixo-assinado dos militares enfatizando que “felizmente a ditadura e a censura acabaram, e hoje a gente pode contar uma história sem medo, ou deveria poder”.

Divisor de águas

A polêmica em torno de “Amor e Revolução” dá bem a ideia de como a questão da Comissão da Verdade divide opiniões e ainda faz ressurgir a problemática da interferência dos militares no dia a dia nacional, sobretudo a participação dos remanescentes da época. Estes, embora em sua imensa maioria hoje sem comando, ainda tentam se apresentar para a sociedade como juízes do que deve ser apresentado nos meios de comunicação, bem como tentam omitir o fato de que alguns grupos foram responsáveis por inúmeras graves violações dos direitos humanos.

A criação da Comissão da Verdade tem recebido o apoio do governo Dilma Rousseff, e a ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário (PT-RS) já se manifestou em várias ocasiões a favor de que fatos ocorridos nos tempos da ditadura sejam finalmente esclarecidos para que os brasileiros possam virar definitivamente a página de tantos anos obscuros.

Caso seja aprovada pelo Congresso, como provavelmente ocorrerá se o governo Dilma continuar dando total apoio, a Comissão da Verdade não terá a função de punir autores das atrocidades cometidas no período ditatorial e que agora estão sendo mostradas pela telenovela “Amor e Revolução”, mas apenas esclarecer fatos.

A presidenta Dilma Rousseff tem dialogado frequentemente com os setores militares, sendo que, ao ser homenageada na semana passada pela cúpula militar, assinalou que o Brasil está corrigindo os erros do passado. Ela recebe elogios dos mais amplos setores por sua condução pragmática ao lidar com a área militar.

O tema é delicado, e ainda há feridas não cicatrizadas que podem provocar muita polêmica, como demonstra “Amor e Revolução”. Por isso, independente do fator audiência, a telenovela está cumprindo um papel relevante no atual momento político brasileiro relacionado com a questão dos direitos humanos.

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2 comentários em “Militares tentam censurar telenovela

  1. Esta novela é a melhor novela política que já se fez na televisão brasileira – corajosa e imparcial. Conteúdo excelente que deveria servir de exemplo para outros canais.

  2. A novela retrata a historia do Brasil recente.
    Os milicos de pijama de bolinha tem medo da verdade, quem não deve não teme!
    Essa a ventura da ditadura militar 1964a1985 somente custou um precinho camarada de uma dívida no valor de US$120.000.000.000,00 a ser pago em anos de arrocho salarial, comprometimento do nosso desenvolvimento econômico e social