DE LADRÃO DE BANCOS A LADRÃO DE CARROS
por Roméro da Costa Machado, escritor.

Roberto Marinho, que ostentou por muitos anos a fama de "O maior assaltante de bancos do Brasil", título dado pelo jornal "O Pasquim" (26/09/83), por ter conseguido saquear o Banerj em quantia muito superior ao que tinha sido roubado por todas as grandes falanges criminosas e especializadas em assalto a bancos, demonstrando que em matéria de roubo as quadrilhas especializadas não passavam de meros amadores, eis que subitamente Roberto Marinho desvia-se de atividade de "assalto a bancos" e envereda-se por outra atividade menos glamourosa, qual seja: roubo de carros.

Um amigo meu, Paulo Roberto Romano, comprou uma Caravan num leilão de carros e ato contínuo foi fazer a transferência do veículo para o seu nome. Entretanto, este ato absolutamente corriqueiro quase custa-lhe a liberdade, pois ao chegar no Detran para fazer a vistoria do carro, foi constatado que o carro tinha o chassis remarcado e tratava-se de um carro roubado.

Como determinam as regras, foi chamado a Polícia Especializada, e imediatamente foi dado voz de prisão ao meu amigo, Paulo Roberto, e ele imediatamente conduzido à delegacia.

Em lá chegando, Paulo Roberto faz a colocação mais cristalina do mundo: "Peraí... está tudo invertido... eu comprei esse carro num leilão... eu sou só o comprador... se alguém tiver que ser preso, que seja o vendedor... o verdadeiro ladrão do carro. Ou melhor: o dono da Rede Globo que me vendeu este carro".

Engasgos gerais... e o detetive, constatando a realidade do fato, dá a mais absurda das ordens ao meu amigo: "Tire esse carro daqui. Nunca vi este carro. Dê sumiço nele. Devolva para quem você comprou. Não quero confusão pro meu lado. Desfaça essa compra que você fez"

"Mas... peraí... eu comprei esse caro num leilão (legítimo) e ia ser preso por estar com um carro roubado... e agora que vocês sabem a procedência do carro roubado, vocês me mandam dar sumiço no carro? Não querem mais prender o ladrão?. Que bagunça é essa?"

Paulo Roberto ainda tentou de várias formas registrar a ocorrência na Delegacia Especializada em furto de automóveis, mas foi impedido, pois os policiais recusavam-se a registrar a ocorrência. Tentou formalizar a questão pelo Detran, mas recusaram-se a registrar o acontecimento. Daí Paulo Roberto lembrou-se de mim... da Globo e contou-me toda a história. (Incrível como as coisas relacionada à Globo acabam sempre vindo a mim pelos mais variados caminhos)

Fotografamos o carro, os documentos, a adulteração e falsificação de chassis, tudo. E pela Tribuna da Imprensa fiz publicar toda a história, capaz de surpreender e envergonhar Kafka, o maior escritor de absurdos, e transformá-lo num mero escritor de historinhas infantis.

Não tardou e um graduado funcionário da Rede Globo procurou o meu amigo Paulo Roberto Romano e recomprou a Caravan (roubada) vendida em leilão pela Globo e "deu sumiço" no que poderia ser a única prova e evidência do roubo de carro, não tivéssemos publicado tudo antes, na Tribuna da Imprensa.

Que lições tirar desse episódio kafkaniano em que um policial está prestes a prender um "ladrão de carros", mas quando descobre quem é o verdadeiro ladrão, recusa-se a registrar a ocorrência e sugere dar sumiço no produto do roubo? Que outro jornal, sem ser a Tribuna da Imprensa, publicaria toda a história, com fotos e cópias dos documentos? Que outros motivos reais poderiam determinar a prisão de uma pessoa como Roberto Marinho? Fica mais do que claro que se Roberto Marinho roubasse o que fosse... jamais iria preso. Se Roberto Marinho praticasse qualquer falcatrua... também não iria preso. Se Roberto Marinho matasse uma pessoa... não iria preso (e a culpa ainda seria do morto). Que motivos a lei deste país precisa para prender uma pessoa considerada "acima do bem e do mal"?

Dessa história triste, repugnante e chocante, sem qualquer fundo moral, fica somente a certeza de que as pessoas consideradas "acima do bem e do mal" beneficiam-se da cumplicidade oficial em qualquer circunstância. Entretanto, mesmo estas pessoas um dia encontram o seu declínio na vida... nem que seja para passar de laureado ladrão de bancos a reles ladrão de carros.

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