João Roberto Ripper
Repórter fotográfico do grupo Imagens Humanas. Leia mais



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por Breno Costa
Agosto de 2004

“Façam um desenho sobre a candidatura de vocês”. Esta deve ter sido o pedido feito pelo jornal O Globo aos candidatos à prefeitura do município do Rio de Janeiro. A partir dos desenhos, psicólogos iriam traçar uma espécie de desenho da personalidade dos políticos. Resultado: Marcelo Crivella, do Partido Liberal (PL), foi considerado “narcisista” e assustou os analistas ao desenhar uma cruz de cabeça para baixo. Eu, hein... Em todo caso, dos cinco principais concorrentes ao Palácio da Cidade, apenas Cesar Maia não foi alvo de alguma anotação um tanto ou quanto constrangedora.

Partindo dessa reportagem, publicada na edição do dia 3 de julho, poder-se-ia antever a preferência do jornal por esse ou aquele candidato. Porém, não pretendo centrar minha análise no cristalino apoio do veículo ao candidato do PFL, mas na mais cavernosa rejeição a Crivella. Vamos à ficha do moço: pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, que controla a Rede Record de Televisão; sobrinho do Bispo Edir Macedo – aquele mesmo que deu umas sapatadas na imagem de Nossa Senhora Aparecida e entrou em conflito bélico com a toda-poderosa Organizações Globo.

Precisa de mais alguma coisa? Ora, se depender da Globo (e, queira-se ou não, depende), Crivella não chega nem ao segundo turno. Aliás, por ela, Crivella nem candidato seria. E as investidas pela queda de sua candidatura são freqüentes. Não é porque o sujeito é de direita que nós, simpatizantes genéricos do ideário de esquerda, vamos deixar de criticar a Globo pela conduta extremamente incisiva contra o candidato do PL.

Chega a dar pena do senador. É fogo cerrado contra ele. Tomahauks na cabeça. No mesmo dia da reportagem sobre os desenhos, O Globo acusou Crivella de envolvimento com contas em paraísos fiscais. No sábado seguinte, o mesmo jornal dizia que ele tinha duas emissoras de TV não-declaradas no Imposto de Renda. No domingo, dia 11, mais munição de guerra contra o sobrinho de seu arqui-inimigo: diversas irregularidades foram constatadas na fazenda Nova Canaã, na Bahia, de propriedade do senador e tida como um dos pontos positivos do histórico de Crivella, devido aos projetos sociais ali desenvolvidos.

Dez dias depois, mais uma parte do arsenal global é desferido contra o candidato: o endereço da única empresa de Crivella registrada na declaração de Imposto de Renda não funciona no local indicado. No dia segunite, 22 de julho, O Globo revela que o advogado de Crivella está envolvido no escândalo Waldomiro Diniz; ele seria um funcionário fantasma da Loterj e teria participação na indicação de cargos para a empresa.

Nesse meio tempo. O TRE abriu um processo que pode resultar, para felicidade das Organizações Globo, na impugnação da candidatura de Crivella, segundo colocado nas pesquisas de intenções de voto.

Deixemos claro, entretanto, que as acusações do Globo podem muito bem ser verídicas. Não está se contestando a veracidade das informações divulgadas pelo jornal. Mas nós bem sabemos que a grande imprensa só solta determinados escândalos quando assim lhe convir. Que o diga o deputado estadual Jorge Picciani (PMDB), presidente da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Um grupo de fiscalização do Ministério do Trabalho – logo, órgão oficial – encontrou, em junho de 2003, em fazenda de sua propriedade, cerca de 50 trabalhadores em situação análoga à escravidão. E mais: o procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, emitiu parecer atestando a responsabilidade do político no caso. Pois é. Agora me diga: o jornal ou algum outro veículo das Organizações Globo falou alguma coisa? Não. Por falta de conhecimento? Conta outra, né...

Nesse caso, as motivações que levam a empresa dos Marinho a bater em Marcelo Crivella são, até certo ponto, cristalinas. A Record é, historicamente, concorrente feroz da emissora carioca, sendo controlada pelos bispos da Igreja Universal do Reino de Deus, que tem no senador seu principal representante político no estado do Rio de Janeiro. A emissora paulista, aliás, vem batendo de frente com a Globo no caso da liberação de empréstimo do BNDES para saldar as dívidas da “vênus platinada“.

Agora, é dever da imprensa fiscalizar o poder da melhor maneira possível. Se as denúncias contra Crivella forem verdadeiras, o jornal estará prestando um inestimável serviço à sociedade. Mas e quanto aos outros candidatos? Não me parece crível que estes não tenham sequer uma mancha de difícil remoção em suas trajetórias politicas e pessoais. E o resto, como fica?

Especial para o www.fazendomedia.com

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