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JOSÉ ARBEX JR.

Ele começou na imprensa clandestina. Fazia um jornal contra a ditadura. Atuou também na imprensa do PT e em sindicatos. Chegou na Folha de S. Paulo em 1984 e saiu em 1992. Hoje está no jornal Brasil de Fato e na revista Caros Amigos, além de ser professor de da PUC-SP e autor de vários livros, como Showrnalismo - a notícia como espetáculo e O Jornalismo Canalha, ambos da editora Casa Amarela.

Marcelo SallesJosé Arbex Jr., conte-nos como foi a sua saída da Folha de S. Paulo?
Eu saí em 1992, primeiro porque eu já estava cansado da grande imprensa, achava que não tinha muito mais pra fazer lá. Eu já tinha feito a cobertura da queda do Muro de Berlim, da retirada do Afeganistão... Já tinha entrevistado quem eu queria. Então, não estava me acrescentando muita coisa. Depois disso, quando a Folha me pediu para cobrir a Eco-92, no Rio, aconteceu uma coisa que me desagradou muito. A Folha já tinha o balanço do que foi a Eco-92 antes de ela ter acontecido, estava numa linha de dizer que seria um fracasso. Fazia parte da visão de mundo da Folha, sempre muito cética em relação à possibilidade de mudar o mundo. Se você ler a cobertura do jornal em relação aos fóruns sociais mundiais você sente isso. Uma ironia, uma vontade de esculhambar com tudo. Eu achei isso errado. Sair de São Paulo já com uma tese pronta... Eu fui contra. Praticamente me obrigaram a ir. Foi uma situação chata. Aí eu cheguei lá e percebi que o Brasil estava num jogo político com os Estados Unidos, o Brasil tentava não liderar um movimento da dissidência ecológica em relação aos EUA, dentro do Grupo de 77 (se formou um grupo de 77 países pra impor condições para os EUA para exploração das reservas ambientais). E o Brasil, desde 87, jogava um jogo moderado. Deduzi que isso fosse porque ele queria a cadeira no tal Conselho de Segurança da ONU. Procurei o ministro Celso Lafer, perguntei a ele se era isso e ele, off record, disse que era. Porra, eu tinha uma história. Mas a Folha deu o mínimo de espaço. Aí eu perdi a paciência.

Manoela CesarE como é sua relação com a grande mídia?
A minha relação com a Folha, com o Otávio [Frias Filho, diretor de redação] sempre foi muito boa. Porque ele sempre soube o que eu penso e eu sempre soube o que ele pensa (risos). Ele nunca tentou me impor restrições nem mudar aquilo que eu penso e eu nunca alimentei a ilusão de que algum dia ele seria algo diferente daquilo que ele é. Acho que eu era um dos poucos que tinha liberdade de chegar na sala dele e expressar claramente críticas ao projeto, à atitude dele na Folha, à linha de cobertura. E era recíproco. E, até hoje, é uma relação que se mantém nesse quadro. Para dar um exemplo: quando eu senti que já estava exagerado o tipo de calúnia que estava se fazendo contra o governo Chávez, eu liguei pro Otávio e falei: "Olha, eu quero escrever um artigo na página 3, porque o que vocês (a grande mídia) estão fazendo é o fim da picada". Ele respondeu: "Então, tá. Escreve".

Marcelo Salles – Na Eco-92 não tinha um agravante? Porque parece que o Otávio não gostava muito do Collor, coisa pessoal mesmo. Isso não teria influído?
Não, não... Acho que tem a ver com o ceticismo permanente da Folha em relação a qualquer possibilidade de mudança positiva do mundo. Agora, eu também não tenho ilusões quanto à liberdade que o Otávio me dá para escrever. Eu não tenho nenhuma ilusão (risos). Com o resto da grande imprensa a coisa está meio mal, porque desde que eu escrevi o livro "Jornalismo Canalha", primeiro que o livro não foi comentado em lugar nenhum. Eu esperava que, no mínimo, as empresas citadas no livro se manifestassem. Eles usaram com o livro a mesma tática que eles sempre usam, por exemplo, com a CartaCapital e a denúncia do Bob Fernandes, que falava da presença da CIA na Polícia Federal brasileira. Silêncio absoluto. Mas a partir daí piorou. Mas eu estava esperando. Se eu escrevo um livro para atacar os caras, é óbvio que eles iam reagir de alguma forma.

Manoela Cesar – E no meio acadêmico, como você lida com esse jornalismo canalha? Para aqueles que não querem seguir esse jornalismo, qual seria a saída?
Aí tem muitas saídas possíveis. Estou no meio acadêmico porque acho que existe uma questão no jornalismo que precisa ser permanentemente esclarecida. Decidi voltar para a Universidade quando ainda estava na Folha. Vi a cobertura da Guerra do Golfo - eu era editor da Folha - e eu vi o absurdo que era os caras cobrirem a guerra e dizerem que não tinha nenhum morto - quando hoje se sabe que morreram pelo menos 150 mil. E aí eu fiz pra mim mesmo duas perguntas: primeiro, como eles fazem para falsificar a cobertura inteira de uma guerra? E segundo, como eles fazem para que o povo acredite na cobertura falsificada - que é a parte mais importante. Quer dizer, é relativamente fácil explicar a cobertura. O que é difícil é explicar como que alguém acredita que se bombardeia por 40 dias seguidos 4,8 milhões de habitantes e ninguém morrer. Isso tinha que ser explicado. Eu comecei a perceber que a mídia fazia cada vez mais parte da estrutura do poder. A mídia era o poder. Não é o quarto poder. Ela é o poder.

Manoela Cesar – Eu queria que você falasse um pouquinho sobre a questão da contextualização da história na mídia para que se entenda melhor as coisas que estão acontecendo no mundo.
A Veja é um bom exemplo de tudo o que não pode ser feito em jornalismo. Uma reportagem recente dela compara as escolas do MST com as do Islã. E depois chama ambas de terroristas. O que mostra que ela não conhece nem as escolas do MST nem as islâmicas. Terrorismo é a única coisa que ela sabe. Porque ela faz terrorismo. Então, como é que ela faz isso? Justamente por esse processo de descontextualização das coisas. Ela tira as coisas das circunstâncias históricas, políticas e sociais em que elas acontecem e dá uma explicação aparente para as coisas, como se fosse a única possível.

Marcelo Salles – Você tocou em dois pontos importantes: como que a mídia faz para falsear a realidade e como ela faz com que as pessoas acreditem nessa "realidade". E eu queria aproveitar, dentro dessa pergunta, para saber como está o Brasil hoje. As pessoas estão informadas? Porque, apesar desse silêncio da grande mídia, existem fontes alternativas de informação.
Aí é uma discussão muito complicada, porque eu não acredito que o direito à informação seja apenas o direito de receber a informação. É o direito, também, de produzi-la. Esse é o sentido da luta pela democratização da mídia. Criação de rádios comunitárias, livres, independentes. E, nesse campo, o Brasil está muito mal. O governo Lula continua fechando rádios comunitárias, como fazia o FHC, continua destinando milhões de dólares para a grande imprensa, de olho nas eleições de 2006. E isso se torna um problema para a democracia, porque, no fundo, reforça a estrutura do coronelismo da mídia, que sempre existiu no país, a famosa meia-dúzia de famílias que controlam a informação.

Marcelo Salles Eu queria que você falasse sobre a Caros Amigos. Como que é o seu trabalho lá?
A Caros nasceu de uma maneira laica, não tinha tanto compromisso com a luta social. Surgiu mais como uma aglutinação de jornalistas, intelectuais, artistas que estavam cansados da grande imprensa e resolveram fazer algo diferente. Com o tempo, a revista foi ficando cada vez mais antenada com o que acontecia no Brasil. E o MST teve papel fundamental nisso. Ele foi, de certa forma, a ponte entre a revista e a realidade brasileira. Ele tirou a revista da Vila Madalena (bairro nobre de São Paulo) e jogou ela lá para o Maranhão, Bahia, Carajás... Ela sempre foi de esquerda, mas era uma coisa muito intelectualizada. A vocação da revista é ser cada vez mais o porta-voz desses movimentos, porque se você tirar o Brasil de Fato e a Caros Amigos, o que sobra? A CartaCapital, mais ou menos, porque ela tem um torturador lá dentro escrevendo, que é o Delfim Netto. A CartaCapital não é de esquerda. É uma boa revista, produz grandes reportagens, o Bob Fernandes é um excelente jornalista, mas, ideologicamente, não é uma revista de esquerda. Então, sobram algumas publicações localizadas. Isso não demonstra força da Caros Amigos; demonstra a fraqueza da esquerda brasileira. É uma bosta que aconteça isso. E se a Caros Amigos fechar? E se o Brasil de Fato fechar? Eu espero que isso saia na entrevista: eu acho que, em grande parte, a responsabilidade dessa fraqueza é do movimento estudantil. Eu vejo cada vez menos estudantes interessados em ler, em estudar, em discutir e cada vez mais interessados em cervejada, em festa. Eu não sou contra isso. Sou a favor. Eu sou contra essa euforia com essa idéia de ser de esquerda, só que na hora em que você perguntar para o cara o que ele leu sobre o Brasil, sobre Florestan Fernandes, Milton Santos, é um desastre absoluto. Então, existe um problema com a esquerda e com os estudantes, que não entenderam ainda o tipo de inimigo que nós estamos enfrentando. O imperialismo é muito competente. Ele reúne os melhores cérebros do planeta. Ele paga bilhões para produzir instituições universitárias que produzem esse ambiente cultural que nós estamos vivendo. A mídia não é assim de graça. Eles têm intelectuais poderosos que fazem tudo isso. O Lênin dizia: "Não existe prática revolucionária sem teoria revolucionária". E isso é uma vitória da burguesia; ela conseguiu criar uma cultura que despreza o saber. É uma cultura de demanda por prazer imediato. Eu não tenho ilusões. É gravíssimo o que está acontecendo no Brasil. Quando o cara tem R$ 2 para comprar uma cerveja, mas não tem R$ 2 para comprar o Brasil de Fato é uma coisa muito preocupante.


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