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Marcelo Salles: A cultura fast-food faz refém o imaginário popular

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familia_marinhoNo livro “Os sentidos do lulismo”, André Singer registra o avanço das políticas públicas que permitiram que milhões de brasileiros melhorassem de vida. Ele também mostra que essa melhora se deu apenas no plano econômico, sem que essa evolução fosse acompanhada pela elevação da consciência política do povo. Singer foi porta-voz do governo Lula entre 2003 e 2007.

Uma questão se impõe: iria o povo beneficiado pelas políticas públicas dos governos do PT manter seu apoio num cenário de crise econômica?

Como sabemos, os meios de comunicação de massa são, nos dias de hoje, uma das instituições com maior poder de produção e reprodução de subjetividades, ou seja, são instrumentos extremamente poderosos na definição de formas de pensar, sentir e agir da sociedade. Se não existe formação política sólida dos cidadãos, a tendência do imaginário popular é ficar refém da cultura fast-food propagada incessantemente pelas corporações de mídia.

Aqui, um ponto se destaca: o ataque constante dos meios de comunicação de massa à Política. Em sua guerra contra o Poder Público, o vale tudo da imprensa admite qualquer coisa desde que se atinjam não apenas os líderes do PT, mas, sobretudo, a Política como forma de conduzir o ser humano à sua emancipação histórica e cultural. Desde o programa de auditório mais amador até o telejornal supostamente sério, todos atacam diariamente o Poder Público. Algumas vezes com razão, mas a maioria delas por esporte. O “livre mercado” é o Deus a ser louvado, de preferência sem nenhuma regulamentação.

Como no Brasil a mídia ainda é um setor concentrado em poucas mãos (90% ou mais da TV aberta é controlada por meia dúzia de famílias, todas ideologicamente afinadas), esse poder tende a se multiplicar. Em outras palavras, o cenário da comunicação do país é o caldo de cultura perfeito para a difusão do ódio à Política.

Essas questões são centrais para se explicar o fenômeno Marina Silva. Ela captura, como ninguém, o voto do cidadão que foi ensinado a ter ódio da Política. De alguma forma, Marina é identificada como alguém fora da política, enquanto os candidatos do PT e do PSDB não podem se dissociar por terem governado o país nos últimos 20 anos. Marina não tem um partido, tem uma Rede. Em agosto do ano passado, logo após pesquisa Datafolha que a colocava com 26%, escrevi aqui:

Estava claro que Marina Silva cresceria porque sua militância está permanentemente mobilizada por conta da validação das assinaturas para a criação da Rede Sustentabilidade. De modo que seu nome tem sido veiculado com regularidade, ao mesmo tempo em que a ex-ministra, ela mesma evangélica, conta com o apoio significativo de grupos dessa religião. Até outubro, quando deverá estar filiada a algum partido, Marina deve crescer, podendo alcançar 30%.

Marina não conseguiu fundar a Rede a tempo para o pleito de outubro próximo, mas conseguiu entrar como vice na chapa do PSB, encabeçada por Eduardo Campos. Por obra de um acidente, que ainda está sendo investigado, ela tornou-se candidata à Presidência da República por este partido. E encontra-se na casa dos 30% um ano depois.

Difícil dizer se é possível, ou mesmo se há tempo, para uma mudança de rumo na campanha petista que traga de volta os índices da presidenta Dilma ao patamar dos 40-45%. Independentemente disso, o partido precisa se reorganizar e dar centralidade a duas questões: formação política do povo e democratização da mídia. Esse é o melhor caminho para a consolidação de um país democrático – e na atual conjuntura brasileira, o PT é o partido com as melhores condições para conduzir os destinos da Nação.

(*) Marcelo Salles é jornalista. Artigo publicado originalmente no blog Vi o mundo.

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