Arquivos do autor: Fábio Nogueira

Foto: Douglas Schineidr / JB Online

Maria, Maria, Maria de Fátima da Silva

Share

Por Fábio Nogueira e Celso Sanchez (*)

Foto: Douglas Schineidr / JB Online

Foto: Douglas Schineidr / JB Online

Aconteceu de novo. Não o inesperado, mas cada vez menos a exceção ou acaso. Mais um assassinato de rotina de um jovem, negro. O garoto, um sonhador, um trabalhador brasileiro, tombou enquanto buscava nos passos da dança seu espaço no salão desta sociedade descompassada ainda tão desigual, tão medievalmente desigual.

Douglas Rafael da Silva Pereira somou-se nesta semana às estatísticas de violações de direitos humanos que colocam a cidade olímpica, a cidade maravilhosa da final da copa, como uma das mais violentas do mundo. DG como era conhecido, já é mais um Amarildo, João, José, Maria. É mais um na vala comum reservada a esta parcela da população, que resiste e insiste em existir na diáspora que nos arrasta.

Em meio ao caos que se transformou o morro do Pavão Pavãozinho, ouviu-se o grito da mãe do jovem Douglas. Uma voz retumbante que, como um trovão, dava notícia de não se calar antes da verdade verdadeira aparecer. Senhora Maria de Fátima da Silva, herdeira da coragem, expôs a voz e a face, sem medo, sem papas na língua, para denunciar a atrocidade que cometeram com o seu bem mais valioso, seu filho.

Maria diante de rádios, TVs, imprensa internacional, autoridades, não se intimidou com possíveis e comuns represálias, falou o que precisava ser dito por alguém. De repente, as pautas dos jornalistas acostumados a repetir o editor “tá lá mais um corpo estendido no chão” viram-se diante de um personagem, e a versão da história começa a ser outra.

O morto ganha nome, sobrenome, descobre-se que tinha documento, CPF, comprovante de residência no asfalto. Andava com título de eleitor e certificado de reservista. DG tinha uma vida. E a tiraram. Enquanto Maria diante das câmeras, mostrava os documentos encharcados de seu filho, denunciando que não era mais um. Ela conseguia sua primeira vitória: Mostrar em alto e bom tom que todos somos alguém. Todos somos DGs. Todos somos Amarildo. Todos somos Joãos, Josés, Marias.

Nas lágrimas guardadas de Maria está toda a indignação do mundo, e nas nossas lágrimas derramadas nossa identificação com a dor desta mãe. Choramos por DG, pelo sangue derramado que tingiu o pátio da creche onde apareceu. Quase numa metáfora, para que se aprenda desde cedo que não podemos permitir que se perpetue a brutalidade, que se banalize a vida e que se exalte a violência.

É a coragem de Maria que nos faz lembrar outra mulher que arriscou sua vida lutando por verdade. Marli Pereira Soares, em pleno regime militar na década de 80, desafiou todo o 20º Batalhão de Polícia Militar, além da Polícia Civil, pela morte de seu irmão. A luta foi árdua. Marli e Maria são dessas mulheres que não se intimidam contra arbitrariedades daqueles que são pagos com o salário do contribuinte.

Marias como estas estão espalhadas em nossa história. Infelizmente na história contada por manchetes policiais. Impossível não se lembrar das “mães de Acari”. O drama dessas mulheres é perturbador e agonizante. Quase 24 anos se passaram e nenhum dos corpos de seus filhos foi encontrado para terem o direito de serem enterrados dignamente.

Diante deste cenário tenebroso, ouvir o grito de Maria de Fátima da Silva é como ouvir o grito de todas estas mulheres. Um grito que ecoou como um lamento, mas antes de tudo, como uma sede de justiça, de paz e de verdade. Do ventre deste grito, brota uma esperança que nos inunda.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu.

Pedaço de Mim – Chico Buarque de Hollanda

_________________
(*) Fábio Nogueira é estudante de história da Universidade Castelo Branco e Militante da Educafro; Celso Sanchez é professor da UNIRIO e Militante ambiental.

Share

Médicos cubanos: o cheiro da Intolerância

A vinda dos médicos cubanos ao Brasil tem alcançado limites do absurdo e falta de imaginação. Ler textos de jornalistas formadores de opinião dizendo que é igual à vinda dos escravos em navios negreiros, é o mesmo que chamar o leitor do jornal de imbecil. Outra pérola ficou com a chamada invasão comunista dita por alguns “profissionais” da informação. O pior de toda essa história é que tem pessoas que acreditam… Leia mais »