Marcelo Salles

O Fazendo Media na voz de seu fundador

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Marcelo Salles, jornalista fundador do Fazendo Media. Foto: Arquivo do entrevistado.

A ideia surgiu na cabeça de estudantes na Universidade Federal Fluminense (UFF), e se tornou referência na mídia alternativa carioca. Apesar de todas as dificuldades que enfrenta para sobreviver, o Fazendo Media (FM) segue em frente na resistência. Para contar essa história na 100ª edição entrevistamos o jornalista Marcelo Salles, principal idealizador do projeto. Mesmo na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, ainda acompanha os caminhos de sua idealização e, como disse outra colaboradora, é uma figura onipresente no FM.

Salles já colaborou em alguns dos meios alternativos mais expressivos no Brasil, como Carta Maior, Brasil de Fato, Le Monde Diplomatique, Brasileiros e revista Caros Amigos, na qual foi correspondente por mais de 5 anos. Na entrevista ele conta como surgiu o FM, qual é o cenário dos meios de comunicação no Brasil e aponta os desafios e necessidades para construção de uma mídia alternativa em grande escala no país.

O Fazendo Media começou mesmo na TV? Nos conte como tudo começou.

É verdade, começou na TV, em janeiro de 2003 com o Fórum Social Mundial. O diretor do IACS (Instituto de Artes e Comunicação Social-UFF) na época, Antônio Serra, apoiou o nosso projeto. Acho que a transmissão do primeiro programa foi no dia 28 de maio de 2003. Estavam a Manoela [César], o Vitor [Ribeiro], a Carol [Rangel], eu, e talvez a Charline [Fonseca], não me lembro se tinha outras pessoas. Então, começamos com o apoio da maioria dos professores, não contávamos com o pessoal da técnica e a nós mesmos fazíamos a operação. Dava muito problema, mas a gente conseguia fazer o programa. Transmitíamos pela TV Universitária da UFF. O pessoal dos outros programas ficava impressionado, porque era na hora do jogo de futebol, quarta-feira, às 22h. Tinha uma concorrência forte, mas bastante gente ligava, e foi por aí que a coisa começou.

O que motivou a escrever o projeto?

A necessidade. Engraçado,eu tinha a ideia de fazer uma revista e foi a única coisa que não aconteceu, teve jornal e site. Vocês podem me chamar de ingênuo, mas era para entregar a todo brasileiro 190 milhões de exemplares, e denunciar as injustiças. Denunciar trabalho escravo da Nike lá Ásia, por exemplo,com a ideia de que a pessoa se informando não compraria mais o tênis da Nike e, portanto, a empresa não conseguiria mais explorar as pessoas. Mas depois vimos que não dava para imprimir 190 milhões de exemplares (risos), e também que muita gente mesmo sabendo disso continuava comprando a Nike. Tomamos um baque, mas continuamos o projeto. O jornal impresso surge logo depois, em junho de 2003. A coisa começou no Fórum, e é importante registrar que foi um projeto coletivo.

Eram alunos da mesma turma?

Todos eram do mesmo semestre na UFF, e bastante amigos.. Em 2007 a minha monografia foi um projeto de revista para o FM, na época eu contei e vi que havia passado pelo projeto 97 estudantes. Hoje são pelo menos 120. Sempre teve gente que aparece e some, e também quem fica mais e vai tocando como vocês estão fazendo. E tem a dimensão do jornal laboratório, tem gente que está pensando só em ter uma prática enquanto outros acreditam no ideal e ficam mais tempo. É preciso saber conviver com a dificuldade e ir adiante.

Vocês já foram para o Fórum Social Mundial com uma ideia, ou ela surgiu lá?

Posso falar por mim, possivelmente outras pessoas podem ter outra visão. Entre 1998 e 2000 eu desisti de fazer vestibular para medicina e fiz para jornalismo, depois de ler o livro Brasil Nunca Mais, coordenado por D. Evaristo Arns, que denuncia a tortura no Brasil. Depois, só quando cheguei em Brasília foi que descobri que o [Paulo] Vannuchi ajudou a reunir informações para o livro, quer dizer, em 1998 eu li e cheguei em Brasília em 2010. Engraçado esse retorno 12 anos depois. Mas nesse processo de politização eu quis fazer essa revista, e isso eu só consegui na UFF, porque havia pessoas afins e com propostas parecidas. Culminou no FM, que foi nome dado pela Manoela: Fazendo Media – a média que a mídia faz.

Da esquerda para a direita: Jean Oliveira, Eduardo Sá, Marcelo Salles e Raquel Júnia. Foto: Fernanda Chaves.

É interessante que o Fórum já influenciou a criação de vários veículos, a Revista Fórum, o Brasil de Fato, e outros. E o Fazendo Media também tem uma relação com o Fórum…

É. Era uma galera que estava lá. Não me lembro se todos que participaram do primeiro FM na TV estavam lá no Fórum. Teve também a Natalia Coutinho, o Bruno, a Malu Muniz, o Breno, que hoje está na Folha de São Paulo, o Vitor. O Vitor se não me engano está numa rádio em Brasília, e a Malu acho que está dando aula, seguiu carreira na academia. Não tenho notícia das outras pessoas. No Fórum, nós ainda não estávamos articulados enquanto grupo de mídia. A primeira cobertura jornalística do FM na TV foi a Bienal do livro. Entrevistamos muita gente, o Millôr, o Ziraldo, etc. Levamos três câmeras, oito pessoas, e foi uma grande descoberta.

Esse propósito de crítica à mídia já veio desde a origem do FM, então?

Sempre teve esse propósito. Eu achava que era uma coisa que estava faltando. Teve até um professor de fotografia da UFF, o Miguel, que falou: “vocês eram o que estava faltando na TV Universitária”. Porque a TV Universitária refletia também a grande mídia, tinha um programa de esportes imitando os comentários das mesas redondas, outro se propunha a ser o Fantástico, etc. Falta ainda hoje um programa, revista ou jornal de circulação de massa que ofereça essa outra visão. Não tenho ilusão de que a gente conseguiu suprir isso, porque foi uma coisa muito reduzida. Não pela nossa vontade, mas pelas limitações mesmo. A esquerda nunca entendeu o verdadeiro poder da comunicação, nunca entendeu a disputa. Eu falo sobre a esquerda no Brasil, porque no Equador, na Bolívia e na Venezuela o processo é outro.  A grande mídia diz: ‘ah, se não gostou da programação muda de canal’. Então, abram espaço, ué! Porque o MST não pode ter uma televisão que pegue com a mesma qualidade da TV Globo, por exemplo?!

O FM nasceu com a ideia de revista, mas veio a TV e o impresso. Por que não rolou a revista?

Porque na Bienal do Livro vimos uma banca da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet). Entrevistamos o Fernando Fortes da Aepet, o Fernando Henrique tinha acabado com o monopólio do petróleo e eles eram super nacionalistas. No final da entrevista eu falei que sempre quis fazer um jornal, e eles disseram que tinham uma máquina que imprimia A3. Foi o formato que deu. Se não fosse esse, a gente agarraria qualquer outro, inclusive a revista. O primeiro impresso foi uma folha A3 dobrada. Tínhamos a ilusão de fazer como os jornais, com chamadas na capa. Rapidamente vimos que tínhamos muito pouco espaço, e a página inicial passou a ser usada para um texto inteiro. A primeira edição deve ter sido uns 500 exemplares, e a tiragem foi sempre crescendo. A distribuição era em alguns pontos em Niterói e outras universidades no Rio, a gente divulgava os locais no jornal.

Quando começou a entrar gente que não era da UFF?

Acho que o primeiro foi o Bruno Zornitta, que era da Estácio, em torno de 2005. O site entrou em janeiro de 2004, depois do impresso. Antes era um blog, que não existe mais. Quem desenhou o site foi a Mariana Simões, fizemos uma coisa na mão, bem amadora. Muito premido pela necessidade de colocar logo no ar, e depois aperfeiçoar. O projeto gráfico do impresso tem dois momentos. Fizemos o primeiro e depois a Evelyn [Bispo], professora da Estácio, mudou. Ela deu uma cara mais profissional, por volta de 2007. O programa de TV durou cerca de um ano, e parou por vários motivos.

A UFF mandava o jornal pelo correio para nós. Era muito engraçado, a gente chegava com 540 jornais para carimbar e a mulher do protocolo da UFF dizia: tá tudo ali, o carimbo, pode sentar e fazer. E a gente ia amarradão, ficava envelopando, carimbando, etc. Chegamos a 540 e poucos assinantes no Brasil inteiro, levávamos na reitoria e a UFF mandava tudo. Aí, depois de um tempo, não conseguimos mais dar conta. Então, reduzimos para essa assinatura paga, que é apoio ao mesmo tempo. Não tivemos perna para continuar, porque não parava de crescer.

Como o Fazendo Media era visto dentro da universidade?

Com amor e ódio. Entre os professores essa divisão era bem clara. Alunos também apoiavam muito, e outros boicotavam, às vezes pegavam uns jornais e jogavam no lixo. Tiravam o cartaz que a gente colocava, porque tinha o jornal mural também nos anos iniciais. Mas a gente colocava outro. Acho que era por causa da linha editorial. O jornal mural era com uma pauta diferente da do impresso. Enquanto tinha coisa para escrever a gente queria escrever. Éramos meio doidos também, porque criticávamos praticamente 90% do espaço onde tinha para trabalhar depois de formar. E a maioria dos estudantes entra na faculdade pensando nesses espaços.

A parte da mídia que mais é vista pelo povo é a notícia mesmo, e é ali que o aparato ideológico é mais forte. Como o povo não lê opinião, editorial, a mídia comercial às vezes dá espaço aí para pensamentos mais à esquerda. Por exemplo, O Globo já publicou artigo do João Pedro Stedile, mas ninguém lê, não faz diferença.

Essa é a questão, pode haver algumas aberturas nos artigos ou até nas notícias mesmo, mas isso por si só não altera a linha editorial do jornal e não vai alterar a mensagem final que ele está sendo passada para o povo. Eu acredito que não vai dar para mudar a percepção de um povo com essa imprensa. Tem de ser outra mídia, que não nasceu ainda, está muito pequenininha e precisa ser fortalecida. O Brasil de Fato tinha de estar vendendo um milhão de jornais por semana, os governos tinham que estar apoiando mais. Houve uma mudança da década de 90 para cá, o Ministério da Cultura fez algumas ações de apoio, o Ministério do Desenvolvimento apoiava muito a Carta Maior, mas ainda é muito pouco. Eu quero a televisão aberta, estrutura para vender milhões de jornais. Aí a disputa acontece.

Coluna do jornalista Fausto Wolff, no Jornal do Brasil, em referência ao Marcelo Salles e o Fazendo Media. Foto: Arquivo do entrevistado.

Aqui no Rio, que foi capital federal, há poucas décadas teve dezenas de grandes jornais e hoje tem meia dúzia, com desdobramentos das mesmas empresas. Também temos poucas mídias alternativas aqui. Por que isso?

É muito pouco mesmo. No Rio de Janeiro, pelo menos duas dúzias de jornais fecharam. O último foi o JB e foi se concentrando na mão de pouquíssimos grupos. Acho que hoje só tem O Globo e O Dia, porque eles têm outros jornais. E na TV a mesma coisa, embora tenhamos hoje a EBC com a TV Brasil. Eles se sentem ameaçados por essa outra forma de comunicar. A Folha de São Paulo publicou no ano passado um editorial defendendo o fim da TV Brasil. Não tinha meia palavra: Por que gastar 300 milhões por ano com uma TV pública? Eles falavam que era jogar dinheiro fora, etc.

Você pode nos contar alguma história que você vivenciou no Fazendo Media que te marcou?

Tem uma que me marcou muito, a do Complexo do Alemão. Eu estava indo direto lá para fazer uma matéria sobre violência policial e, inclusive, cheguei a dormir na favela. No meio dessas idas e vindas o jornal Globo publicou uma pesquisa do Ibope, que dizia que 88% das pessoas apoiavam a mega operação de 2007 quando morreram 42 pessoas no mesmo dia, mais de 100 no total. Mas o Ibope não publicava onde essas pessoas que supostamente apoiavam a mega operação moravam, nem o extrato social delas, só dizia que mil pessoas tinham sido entrevistadas pelo telefone. Então eu juntei um grupo de 16 pessoas, divididas em 4 grupos, junto com o Raízes em Movimento, para entrevistar mil pessoas do Complexo no maior número possível de favelas para aí sim fazermos uma pesquisa de opinião sobre a operação policial. Chegamos a ouvir quase 800 pessoas, consideramos uma amostragem razoável. E nossa pesquisa, ao contrário do Ibope, dizia onde as pessoas moravam. Nossa pergunta era muito simples e objetiva: você é a favor ou contra a mega operação que ocorreu na semana passada? Resultado: 90% contra. Essa história me marcou bastante. Tem várias matérias sobre isso no site. Esse foi um contraponto que a gente fez, só que isso acontece todo dia. Eles distorcem diariamente.

É como um gigante pisando na formiga, se não se organizar para ser do tamanho deles, não adianta. É claro que é duzentas mil vezes melhor do que desistir, mas para disputar mesmo precisamos crescer. Basta você ir aqui do lado na Venezuela e ver como eles fizeram. O negócio é pesado, ver o tamanho de uma Globo da vida, só no jurídico os caras te engolem se quiserem.

E falando em Venezuela, como foi a história da entrevista coletiva com o Chávez no Fórum Social Mundial?

Chegamos no auditório lotado, a imprensa mundial toda lá, em 2005, três anos depois do golpe contra o Chávez. A assessoria dele avisou que só cinco veículos poderiam perguntar. Fomos um dos sorteados, devia ter mais de 100 veículos. Acho que eu cheguei atrasado e a pergunta já estava feita, e não fazia menção nenhuma à mídia. Eu fiz questão de inserir a temática da mídia, era uma coisa tipo a Globo apoiou o golpe, porque eu sabia que ia sair em tudo quanto é lugar do mundo. Era a chance de expor o apoio que a grande imprensa brasileira deu ao golpe frustrado na Venezuela. Então eu coloquei a pergunta e deu briga. O Chávez deu uma resposta enorme.

Marcelo Salles na Bolívia, como correspondente da revista Caros Amigos. Foto: Fernanda Chaves.

As entrevistas sempre foram uma característica forte do FM.

Tem Galeano, Jânio de Freitas, o Tarik Ali, etc. O Galeano foi através do Eric Nepomuceno, no dia que ele fez uma fala no CCBB em 2005. O Eric era colaborador do Pasquim 21 e estava sentado ao seu lado, ele é o tradutor do Galeano no Brasil. Quando terminou todo mundo correu para cima do Galeano e eu fui no Eric, apresentei o FM, e ele disse que no dia seguinte haveria uma entrevista com o Jornal do Brasil no Hotel Meridien, no Leme. Saiu também no JB, mas a parte das perguntas que eu fiz sobre mídia eles não usaram. Nós usamos tudo no FM. Aí ele falou que hoje em dia as grandes novidades e coisas interessantes no jornalismo acontecem nos pequenos espaços. Eu nunca mais esqueci disso. Ele citou o FM, acho que foi em 2005 no Fórum, e alguém fez uma foto dele com nosso jornal na mão.

Como você vê o futuro do FM?

Promissor, porque primeiro tem um campo que continua assim como há 10 anos atrás, alguns avanços mas muito aquém do que precisa ser a comunicação no Brasil. Então eu acho que esse espaço de discussão está aberto, e é isso que a gente propõe. Mas para isso se consolidar, vai ter que haver sempre um grupo de pessoas unidas em torno de um ideal. Não tenho uma solução mágica. Acho que as soluções virão por quem está no dia a dia, que não sou eu, para avançarmos na medida do possível.

Você participou uns 10 anos da sua vida no FM. O que representou essa experiência?

Tenho 32 anos, e estou na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República desde 2010. No FM foram os dias mais felizes da minha vida, eu me lembro de terminar o dia com a auto estima lá em cima. Estudando o que eu gostava, participando de um projeto que eu amo. E me ensinou muito, a faculdade me ensinava a ter uma leitura crítica da mídia e o FM me ajudava a colocá-la em prática. Eu tinha aprendido também antes curso de história, que eu acho fundamental para fazer crítica de mídia no nosso país. E me ensinou também a arte da convivência, do diálogo, de nem sempre o seu argumento prevalecer. Isso foi um exercício duro, mas valeu a pena porque quando você consegue que mais pessoas estejam convencidas e cheguem a um consenso você vai mais longe. Muitas vezes colegas me chamavam de ditador, e era um pouco isso porque para cumprir o prazo do jornal às vezes escrevia outra coisa. É difícil e um pouco utópico também, o espaço do diálogo é bom e positivo mas nem sempre você tem tempo para ficar esperando eternamente o consenso para sair a publicação no tempo certo. Mas não lembro de ter estado tão feliz até o nascimento da Rosa, minha filha.

Qual a importância de fazer isso tudo?

A mídia é, como diz o Gilles Deleuze, uma das instituições com maior poder de produzir e reproduzir subjetividades. Ela vende para as pessoas formas certas e erradas de viver, agir, sentir, pensar, se posicionar, votar, etc. E 90% da mídia que está posta no Brasil diz tudo de ruim. Na economia, dizem que é melhor o pior possível, é o que mais ferra o povo. A cultura é enlatada. O meio ambiente é o mais destrutivo, o bom para eles é negociar crédito de carbono, que também é uma solução capitalista. Então se você for pegar qualquer área, ela vai dizer o que não serve para o ser humano viver. E as pessoas ficam achando que isso é certo, porque só têm acesso a isso na maioria das vezes.

Então o desafio de quem gosta da natureza, do mundo, da vida, do ser humano, é fazer outra mídia. Porque sem ela não vai funcionar. Pode melhorar a educação um pouco, mas vai ser circunstancial porque não vai entrar para a essência da pessoa. Então, para ser um caminho que valorize a vida, a harmonia, a paz, precisamos urgentemente construir outra mídia em escala nacional ou planetária. Aqui no Brasil, por exemplo, precisamos ter veículos muito maiores. Só na TV aberta há seis emissoras privadas com 90% da audiência. Todo estudante de comunicação deveria estar preocupado com isso. Esse é o tamanho do desafio que a gente tem. Eu já falei com o Stédile, o MST tem que por a bandeira da democratização da mídia no mesmo tamanho da reforma agrária. E assim com todas as outras bandeiras, a democratização da mídia não pode ser mais embaixo nem um pouquinho.

(*) Entrevista publicada originalmente na 100ª edição especial do Fazendo Media impresso.

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