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A economia somente será viável se for humana

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A Economia somente será viável se for humana, para o homem e pelo homem. Essa frase, interessante pela abrangência social que contém, é atribuída ao papa João Paulo II (Karol Voitjila, 1920-2005). Para iniciarmos essa conversa, um fato importante deve ser ressaltado: uma economia com uma face mais humana e social, preocupada e centrada na análise das questões sociais, tem sido constantemente sufocada em nome de modelos microeconômicos distorcidos que são dirigidos, em geral, a favor de ganhos cada vez maiores na escala especulativa, atendendo assim uma minoria de privilegiados.

Esses modelos econômicos costumam ser desenhados para atingir objetivos no curto prazo, quase sempre apontando para a necessidade de fazer a produção crescer, pouco se importando com os custos ambientais advindos de um crescimento sem respeito aos limites.

Acontece que buscar uma maior produção não assegura, por consequência, que todos dela participarão ou que, na essência, todos terão uma fatia disponível para abocanhar esse “bolo” do crescimento econômico. Isso, por si só, nos permite afirmar que crescimento não rima com desenvolvimento; e que, por definição mais ampla e conceitual, significa dizer também que crescer economicamente não permite se desenvolver socialmente como se isso fosse mera contrapartida. Desenvolvimento socioeconômico passa por uma abordagem bem mais ampla envolvendo, no bojo, melhoria substancial na vida dos mais necessitados. E, por melhoria na vida das pessoas mais necessitadas deve se entender a capacidade de obtenção do mínimo indispensável ao bem viver.

Dessa constatação parte uma provocação e também um chamado a quem se interessa por construir uma economia mais humana e menos tecnicista, mais social e menos mecânica, em seu sentido capitalista-espoliador. A provocação, nesse sentido, é simplista: faz-se necessário enveredar esforços no sentido de lançar-se um olhar renovador sobre a economia para, a partir disso, entender e propor alternativas a esse “mundo econômico” cada vez mais repleto de injustiças e distorções.

O objetivo disso tudo, em termos de melhorar a atuação das ciências econômicas é apenas um: criar modelos econômicos que permitam melhorar substancialmente a vida de milhões de pessoas. Esse é, certamente, um dos grandes desafios que o economista moderno desejoso de ajudar a construir um mundo onde todos ganham precisará enfrentar. Para tanto, uma ruptura com a tradicional teoria econômica precisa acontecer, até mesmo porque a teoria tradicional que se arrasta por aí insiste em propor um ensino pautado no individualismo, afastando a ideia central do coletivismo.

Nesse sentido, o eixo central da economia precisar ser mudado. A base da economia tradicional não pode ser estritamente o mercado e, o objeto, a mercadoria; mas, antes, o indivíduo e suas necessidades básicas e peculiares. Lembremos, nesse pormenor, que a Economia é feita pelos homens e para os homens, no intuito específico de qualificar a vida daqueles que vivem em precárias condições e, por isso, muitas vezes são levados a morrer precocemente.

Que a Ciência Econômica “carregada” por todos aqueles que vislumbram a necessidade de mudar os atuais modelos microeconômicos pautados na busca excessiva do lucro fácil para um rumo que seja capaz de construir um mundo melhor seja posta, urgentemente, na direção da igualdade entre os homens.

As diversas crises que a economia e a sociedade, por não raras vezes, são (e tem sido) acometidas (vejamos o caso grego dos dias atuais) servem para acender a chama da renovação e da urgente mudança, até mesmo porque é inaceitável aceitar pacificamente a imposição de certas “ordens” ditadas pelos abonados mandantes da “ordem econômica-político” estabelecida.

Amartya Sen, um dos economistas que mais tem trabalhado a questão do social em torno da análise econômica, a esse respeito, certa vez disse que: “É difícil entender como uma ordem mundial compassiva pode incluir tanta gente atormentada pela miséria extrema, pela fome persistente e por vidas miseráveis e sem esperança, e por que a cada ano milhões de crianças inocentes têm de morrer por falta de alimentos, assistência médica ou social”.

Talvez seja por isso que certas situações causam tanto incômodo. Vejamos, por exemplo, que os dentes afiados da financeirização internacional que movimentam, em termos especulativos, 3,5 trilhões de dólares por dia, nos dilaceram a carótida, nos jogam de bruços ao chão, nos tornam ínfimos e raquíticos perante a força do grande capital.

Disso resulta a constatação que é simplesmente insano, patológico mesmo “descobrir” essa verdade sabendo ser também verdadeiro que, a cada ano, milhões de pessoas – pobres, miseráveis e indigentes – padecem pela dor física da fome.

Nos dias que correm nesse século XXI que vem carregando mais de 2.000 anos nas costas a contar do nascimento de Cristo, todas as noites, 900 milhões de pessoas – crianças, jovens, idosos, homens e mulheres comuns -, vão dormir de barriga vazia; não pela opção estética do corpo magro e perfeito, mas por terem as bocas esfaimadas; porque os famigerados sistemas econômicos que “manipulam” mercados ao doce sabor do lucro e que pelos mercados são “manipulados” em favor dos rápidos retornos financeiros que assim determinam tal ordem ignominiosa. Isso nos leva a outra reflexão: em se tratando de economia, não tenhamos dúvidas de que as ações econômicas possuem diversas dimensões e impactos múltiplos que afetam substancialmente à qualidade de vida das pessoas; às vezes de maneira positiva ou negativa. Em outras palavras, em economia somos todos responsáveis pelo que acontece.

O lamentável fato de presenciarmos gente morrendo de fome num tempo em que o avanço tecnológico é incomensurável, não pode ser moralmente justificável. Conhecemos as maneiras (o modo de fazer) e sabemos que os recursos financeiros para tirar essa massa incontável de pessoas da indigência estão disponíveis. Bastaria, para tanto, menos de 0,5% de um PIB mundial que está batendo as cifras dos 74 trilhões de dólares anuais para acabar, de uma vez por todas, com essa sandice. Nesse sentido, para finalizar, vale resgatar aqui as sábias palavras de santo Agostinho quando diz com clareza que “a esperança tem duas filhas lindas: a raiva e a coragem. Raiva do estado das coisas e coragem para mudá-las”.

(*) Marcus Eduardo de Oliveira é economista brasileiro, especialista em Política Internacional e mestre pela USP. Professor de economia na UNIFIEO e na FAC-FITO (São Paulo) prof.marcuseduardo@bol.com.br

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Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO, em São Paulo. Articulista do Portal Ecodebate. Mestre em Integração da América Latina (USP). Email: prof.marcuseduardo@bol.com.br

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