mesa

A cobertura da mídia carioca em situações de conflito

Share

Sentados à mesa, da esquerda para direita: Edna Del Pomo (Nuesc/UFF), Leonel Aguiar(PUC-RIO), Sylvia Moretzsohn(moderadora ABI), Alcyr Cavalcanti (Arfoc), Guillermo Planel (documentarista). Foto: Everaldo d'Alverga.

Para refletir sobre a segurança do jornalista na cobertura policial em situações de risco nas favelas cariocas, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos (ARFOC) realizaram na noite de ontem (08) o debate “O jornalista no meio do tiroteio: a necessidade, o risco e os limites das testemunhas oculares”. A atividade lembrou da morte do cinegrafista da Tv Bandeirantes, Gelson Domingos, que foi baleado durante a cobertura de uma ação policial na favela de Antares, em Santa Cruz, na zona oeste do Rio. O evento contou com a participação de fotógrafos, jornalistas e pesquisadores e também discutiu a segurança pública adotada pelo governo do Estado.

A professora de jornalismo da UFF, Sylvia Moretzsohn, também conselheira da ABI, mediou a mesa e observou que a cobertura de tiroteio não tem notícia, a não ser que a intenção seja o espetáculo e imagens impactantes, como faz o apresentador Datena, por exemplo. Esse comentário foi do editor do jornal Extra em evento recente, no entanto ela acredita que só com a testemunha ocular é possível reduzir os abusos e violações aos direitos humanos por parte do Estado nesses locais.

“Dois aspectos que se conjugam e se conflitam: as UPP’s e a permanência da política de confronto, que parecem estar associadas ao eixo dos megaeventos esportivos. Porque fora dessa área o confronto continua ocorrendo. Como disse o próprio secretário de segurança, ‘uma coisa é um confronto na favela da Coréia e outro em Copacabana’”, destacou.

O fotógrafo Alcyr Cavalcanti lembrou da ascensão da criminalidade no Rio de Janeiro, e observou que o crime não tem nada de organizado. Para ele, a atuação do fotógrafo nessas situações é necessária porque o seu papel é registrar tudo que existe de bom e ruim para que a sociedade tome suas providências.

“Com a entrada maciça da cocaína em 1984 precisava de mais controle do território por causa da riqueza que ela gerava. Uma proteção bélica para invasões policiais e de outros grupos. Hoje no Rio há o comando vermelho, os amigos dos amigos, terceiro comando e as milícias, que está ficando hegemônica. Nas invasões o fotógrafo não deve estar visível, mas com o foco no seu objeto”, disse.

Diretor do documentário “Abaixando a Máquina – ética e dor no fotojornalismo carioca”, Guillermo Planel buscou trazer o lado humano desses profissionais que, mesmo com a dura rotina do ofício, não perdem a sensibilidade e têm bons propósitos ao registrar tais situações de conflito.

“Essa cobertura é uma necessidade básica, porque a população precisa dessa testemunha para mostrar e também defender a comunidade. Está se cogitando a utilização de helicópteros para fotografar, o que seria a robotização do ofício. A guerra do Vietnã acabou com uma foto, a partir de uma menina toda queimada com napalm. Por um lado estão retirando as armas no Rio, mas por outro há um cinturão em torno da zona sul. E a grande mídia está de acordo com isso. Não deveríamos abolir a profissão do repórter de conflito, mas sim dar condições de trabalho, melhores remunerações, porque o fotógrafo vai lá tentando melhorar as coisas”, observou.

Jorge Antonio Barros, jornalista do blog Repórter do Crime, em relação a UPP: "Há uma estratégia de marketing da secretaria de segurança pública muito bem arquitetada, um controle de comunicação muito grande". Foto: Everaldo d'Alverga.

Editor do Repórter de Crime na página de O Globo, o jornalista Jorge Antonio Barros falou sobre a cobertura da violência na favela, mas deixando claro que não era em nome da empresa para quem trabalha e sim do seu blog. Ele lembrou de sua experiência em 1988, quando morou uma semana na Rocinha e fez uma matéria e entrevista com o chefe do tráfico local. Segundo ele, João do Rio foi o pioneiro a lançar olhares para as comunidades cariocas, no início do século passado, mas a imprensa sempre a tratou como refúgio de bandido.

“A favela que vemos na mídia e literatura é totalmente diferente, pois cada uma tem sua especificidade. É preciso tomar cuidado para não criar estereótipos. Ela sempre entrou e saiu da favela, nunca se preocupou com um olhar mais profundo. A favela está ligada à exclusão social, à criminalização da pobreza que sempre existiu. Desde 1960, quando o estado tinha um plano de remoções. E ainda hoje os setores da classe média acham que a maioria dos favelados são bandidos ou coniventes com bandidos. A cobertura usa palavras de guerra, consequência de todo esse imaginário da sociedade. E nesse processo de violência os moradores sempre ficaram sem acesso à informação, à mídia formal”, contextualizou.

A socióloga Edna Del Pomo voltou mais no tempo, ao afirmar que a ideia de limpar a cidade e que a sujeira é o pobre vem desde Pereira Passos, o prefeito que no início do século passado institucionalizou as remoções de favelas.

“Esse processo foi se agravando e de 1990 para cá estamos vivendo um estado penal em desacordo com o estado democrático. Uma pseudo-segurança. É o estado penal que investe contra a população pobre para o modelo neoliberal. E a mídia tem muita importância, porque ela é que chega à população. O tráfico de drogas é muito rentável, os grandes traficantes falam várias línguas, moram bem, e a mídia vai contra isso quando ao prender o Nem diz que vai acabar o problema. O Brasil é o terceiro maior país em taxa de encarceramento do mundo, e a mudança só pode acontecer na medida em que as pessoas são conscientizadas”, apontou a socióloga.

Para o professor da PUC, Leonel Aguiar, os jornalistas estão atrasados em relação aos mecanismos de defesa da nossa profissão. Segundo ele, o risco já nasceu junto com a função de repórter na guerra de secessão dos EUA, quando foram enviadas centenas de jornalistas para o conflito.

“Os limites e riscos são inerentes à nossa função. A SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) diz que na Colômbia 126 jornalistas foram mortos de 1987 para cá, no México 62 e no Brasil 38. Esse caso do jornalista da Bandeirantes foi o primeiro em confronto da polícia com traficantes no Brasil. Os jornalistas sofrem também vários processos judiciais, a precarização do trabalho, dentre outros fatores. De novembro para cá 4 jornalistas foram mortos no Brasil”, relatou.

Share
Eduardo de Sá é jornalista.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>