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80 anos de Zuenir Ventura e sua visão do jornalismo

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Zuenir Ventura no dia do seu aniversário de 80 anos. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Ao completar 80 anos anteontem, no Dia da Imprensa, o jornalista e escritor Zuenir Ventura foi homenageado na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro, com uma placa por sua trajetória profissional. Zuenir atua há mais de 50 anos no jornalismo brasileiro, e passou por quase todos os tradicionais veículos de comunicação, inclusive pela mídia alternativa nos emblemáticos O Sol e O Pasquim. Em entrevista ao Fazendo Media, ele fala sobre as mudanças que o jornalismo sofreu nos últimos anos, as novas gerações em relação às lutas de 1968 e a política de segurança pública carioca.

Tem uma declaração sua em relação ao jornal O Sol que naquela época você sentia a necessidade de outro jornalismo por causa de certo conformismo na imprensa. Como você vê isso hoje, existe conformismo no jornalismo contemporâneo?

Hoje é muito difícil você falar o jornalismo, a imprensa, porque tem uma variedade grande de instrumentos, de veículos, sobretudo na internet. Quando o jovem vem me perguntar como fazer para publicar um livro, eu digo que é difícil mas hoje você pode publicar na internet. Se você tem um blog publica o que você quiser, então vem modificar muito o quadro da imprensa. Essa possibilidade que todo mundo tem de escrever a sua matéria, fazer a sua crítica, o seu comentário. Nos anos 60 nós tínhamos a necessidade de um jornal como O Sol porque você não tinha outra possibilidade. Precisava sacudir um pouco a imprensa, daí a imprensa alternativa, e hoje o alternativo é a internet que é o próprio centro.

Mas você sente essa necessidade de pluralizar a informação em relação ao corporativismo?

Pluralizar sempre, liberdade de imprensa é uma imprensa plural. É você ter uma quantidade e variedade de veículos de todas as tendências, acho que o ideal é isso: ter uma revista de esquerda, direita, de centro, de extrema esquerda, extrema direita, porque isso que é democracia. A democracia é diferença, então é fundamental você ter uma imprensa diversificada.

E qual a sua opinião em relação aos veículos tradicionais em termos de conteúdo?

Acho difícil você falar a imprensa, porque eu acho que há uma diferença de pontos de vista e interesse entre eles. É até difícil e perigoso você generalizar, porque a gente fala por um efeito de facilitar mas é preciso tomar cuidado. Há muita diferença entre um jornal e outro, e uma revista e outra revista.

Na sua fala ao ser homenageado você falou que o poder político e o econômico não gostam da liberdade de imprensa. Por quê?

A imprensa é fiscal da sociedade, ela está aí para chatear mesmo, para criticar. Ela não é poder, é contra poder. Então quem está no poder não gosta de ser criticado, de maneira geral não gosta de ser fiscalizado, porque a imprensa incomoda. Não gostam por princípio, porque a liberdade de imprensa é a possibilidade de você contestar.

Você tem alguma observação a fazer sobre a mídia alternativa atual, no sentido de apontar determinados pontos que ela deveria abordar?

É difícil porque o conceito de mídia alternativa hoje é muito diferente do que quando você tinha uma ditadura, porque tinha veículos que concentravam praticamente o mercado de consumo de informação. Mas hoje você não tem censura à imprensa, você tem uma liberdade grande de expressão de opinião. Então eu não sei exatamente o que seria a mídia alternativa hoje, você pode classificar como, por exemplo, aquela que vende menos. Mas eu acho que não é um bom critério, esse não era o critério do Pasquim, até porque quando ele chegou estourou no mercado.

Atividade em homenagem ao Zuenir Ventura na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Mas a visão do leitor também mudou, é bastante reduzida, nesse sentido a forma de abordagem não deve mudar?

Hoje você pode fazer qualquer tipo de abordagem, um dos problemas naquela época é que você não podia abordar certos temas porque era proibido. Naquele momento você buscava jornais que a mídia principal não podia falar, porque a censura censurava mais os jornais que vendiam mais, que tinham mais audiência. Por isso a televisão tinha uma censura muito mais rigorosa do que um jornal alternativo. O critério era esse e hoje isso não tem mais, então é muito difícil falar em jornal alternativo.

Você ressaltou o fundamental papel do repórter no jornalismo. Como está a reportagem hoje no Brasil?

Eu participo de muitos prêmios, sobretudo pela Embratel que é um prêmio que já existe há 12 anos, e todo ano tem um prêmio grande para o Brasil todo. A quantidade de boas reportagens que a gente recebe é impressionante, eu também tinha essa visão de que não fazem mais reportagem. Mas há 12 anos participo desse júri e fico impressionado a cada ano com a quantidade e qualidade de reportagem em televisão, inclusive em rádio, que é um veículo incrível e no interior tem um poder muito grande. Então eu hoje não digo a mesma coisa que eu diria há alguns anos atrás, de que não existem mais grandes reportagens. Existe sim, elas são premiadas e a gente tem a dificuldade de premiar tal a variedade, quantidade e qualidade delas.

Os anseios de 68, as lutas travadas à época, todas aquelas necessidades não são mais necessárias hoje?

O país mudou muito, até o conceito de geração mudou, a gente falava a geração 68 e hoje você tem tribos. E cada tribo é uma geração, cada uma tem a sua cultura, a sua maneira de vestir, então até aí a sociedade se segmentou muito. É um país e um mundo diferente do que era em 68, as coisas são diferentes. Tanto que os jovens hoje, sobretudo estudantes, pensam em reviver 68 e eu falo cuidado. O Caetano Veloso tem uma frase nesse meu segundo livro que diz: “Para um novo 68, tem que ser muito diferente de 68”. Não é um jogo de palavras, tem que ser outra coisa que a gente não sabe nem o que é.

Tenta-se em alguns países, inclusive nos países árabes, eles estão usando a internet. Em 68 não tinha internet e hoje você é convocado pela internet, há todo um movimento. Eu digo para os jovens ficarem atentos ao que está acontecendo hoje, quais são as formas de luta, querer olhar para trás nostálgico e querer ficar reproduzindo não é…

"A imprensa é fiscal da sociedade, ela está aí para chatear mesmo, para criticar. Ela não é poder, é contra poder", diz o jornalista. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Mas tirando a estratégia de luta, você acha que a vontade de questionar continua na nova geração?

Como são várias gerações, não tem uma como tinha antes, fica difícil de você falar. Vejo jovens participantes e interessados e vejo outros completamente alienados. Eu não posso generalizar, também é perigoso, por exemplo, eu pegar aquele jovem alienado e dizer que todos são assim. Há de tudo, é impressionante.

Você inclusive faz uma análise da geração das rawes (música eletrônica), de que há muito preconceito e estereótipos sobre ela.

Nesse livro “O que fizemos de nós”, eu partia dessa coisa. Daí eu vi que a gente estava fazendo aquilo que a geração anterior fazia em 68: são os porra loucas, não querem nada, só querem saber de passeata. Peraí, daí comecei a conviver e a procurar os jovens e me surpreendi, porque tinha jovens interessantíssimos de 17 anos criticando a própria geração, os próprios colegas. Então eu percebi que o mundo está diferente, está muito segmentado, a gente fala para facilitar “a geração 2000”, de extasy, coca cola. Quer dizer, na verdade a gente está falando de segmentos, mas ele não é hegemônico.

Em relação à sua obra Cidade Partida, como você vê os métodos da segurança pública hoje nessas comunidades do Rio, como aquela explosão midiática com a ocupação mo Morro do Alemão?

Eu acho que realmente o caminho para acabar com a cidade partida é esse que essa nova política adotou, ou seja, ao invés do confronto e enxugar gelo, como se dizia, é a ocupação. Mas infelizmente ainda é cedo para dizer, porque precisa ocupar com cidadania e o próprio Beltrame deu uma entrevista reclamando que tem que ter a ocupação social. Não adianta só a polícia, ela é fundamental, o primeiro passo foi esse de acabar com o território dominado por traficantes, mas você tem que substituir isso por hospitais, escolas, possibilidade de emprego, isso que tem de ser feito.

Mas em relação ao método, de pé na porta, execuções sumárias, como foi feito no Complexo do Alemão?

Eu acompanhei dois momentos no complexo do Alemão. Um em 2007, que eu fui no dia seguinte, e eles foram lá e mataram 19 pessoas. No dia seguinte os traficantes estavam todos lá, mas quando eu voltei agora em 2010 era diferente. Eu conversei com os moradores, teve algum excesso? Teve, mas uma ou outra coisa. O resumo que eu tirei foi de um comerciante que mora lá há 50 anos, eu perguntei se ele estava pessimista ou otimista: Estou otimista mas com o pé atrás, ele me disse. Agora mudou muito, e eu acho que é por aí o caminho, apesar de ser cedo para dizer.

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