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18.08.2008
JOVENS REALIZAM ATO CONTRA A CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA E DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO CENTRO DO RIO
Por Frederico Cursino
Um ato contra a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais, no centro do Rio, encerrou o 1° Encontro da Juventude do Campo e da Cidade na sexta-feira, dia 15. A atividade reuniu os cerca de 1200 jovens militantes vindos de 20 estados do Brasil, que durante quatro dias estiveram concentrados no campus do Gragoatá, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, para discutir pautas sobre formação política e buscar mais unidade entre os movimentos sociais do país.
A manifestação teve início por volta das 15 horas, na Praça Pio X, em frente à igreja da Candelária. No mesmo espaço que há 15 anos policiais militares massacraram oito menores e que hoje o candidato à prefeitura, Marcelo Crivella, ameaça a cidade com a promessa: "Vamos arrumar o Rio" - estampada num cartaz de campanha, a juventude esperançosa levantava suas bandeiras de protesto, pulava e cantava os hits que fizeram sucesso durante o encontro. "Sai do chão quem é contra o caveirão!","Quem não pula é imperialista", entoavam.
Foi um desfile de movimentos: Movimento dos Trabalhadores Desempregados, Movimento dos Pequenos Agricultores, Marcha Mundial das Mulheres, Movimento dos Atingidos por Barragens, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra... Todos, porém, gritavam pela mesma causa: "Viemos protestar contra a política de extermínio, que virou política pública do governo", falou um garoto ao microfone.
Um militante da Rede de Resistência Solidária, de Recife, fez uma pintura no chão em homenagem às vítimas da Chacina da Candelária: "É um menino de rua segurando um lenço vermelho, que simboliza a resistência", explicou o artista.
Em seguida, os manifestantes abriram uma roda em volta da praça para assistir a uma encenação teatral que parodiou as ações do BOPE nas favelas cariocas: "A população está na Zona Sul, aqui só tem ladrão" – era uma das ironias gritadas na apresentação.
Faltou a juventude da favela
Entre a diversidade de representações, não foi ouvida a voz de um movimento que viesse de dentro das favelas – o que pareceu uma contradição com o próprio tema do manifesto. "Acredito que isso aconteça porque a esquerda tem dificuldades de penetrar nas favelas. Talvez até mesmo por erros de estratégia, por considerarem o favelado como lumpen, ou seja, alguém da classe explorada que incorpora os valores da burguesia", explica Gas-Pa, morador de favela que pertence ao movimento "Lutarmada".
Ele lamenta a ausência de um movimento mais forte nas comunidades cariocas. "É uma população com potencial enorme, mas adormecida. Acredito que até pelas condições nas quais esses jovens são criados não conseguem ter a consciência de que o mundo não nasceu assim e que ele deve ser transformado", afirma.
Segundo Gas-Pa, o "Lutarmada" tenta levar a conscientização para essa classe, mas seu alcance ainda é muito limitado.
Depois, a marcha seguiu pelo centro da cidade. Passou pelo Ministério da Educação, onde reivindicaram o acesso da classe trabalhadora à educação pública de qualidade. Em seguida, em frente à empresa Vale, para denunciar os crimes contra as comunidades das áreas de atuação da siderúrgica; e pelo Consulado dos Estados Unidos, onde protestaram contra a política imperialista daquele país.
O abraço não apareceu nos jornais
Foi nessa altura que um carro da Rede Globo apareceu para registrar a ação de alguns "vândalos" que atiraram perigosas bexigas com tinta vermelha contra os prédios da Vale e do Consulado. Por fim, os manifestantes pararam em frente ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro e pediram o fim da criminalização dos pobres do campo e da cidade e dos movimentos sociais.
No mesmo local, já no início da noite, foi feito o encerramento do ato. Os jovens sentaram para escutar a leitura do manifesto da marcha. No final, todos gritaram "pátria livre, venceremos" e trocaram abraços para simbolizar a união dos movimentos.
"Se todos os brasileiros fizessem o mesmo quando tivessem qualquer problema, o país seria diferente", comentou um transeunte que parou para acompanhar a cerimônia. Nesse momento, o carro da Globo já não estava mais presente. E os cerca de 30 policiais mobilizados para o local tiveram que guardar seus cassetetes para outra ocasião.
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