Para as militantes da Via Campesina, o dia internacional das mulheres foi uma data para cobrar o fim dos trangênicos e justiça pela morte de Valmir Mota de Oliveira, o Keno. O militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foi assassinado em outubro de 2007, durante a ocupação de um campo experimental da empresa de origem suíça Syngenta Seed.

Do prédio do Incra, as mulheres foram em passeata até a embaixada da Suíça
No dia 7, sexta-feira, cerca de 200 pessoas, a grande maioria mulheres e crianças, se dirigiram ao prédio do consulado suíço no Rio de Janeiro para exigirem empenho do cônsul na punição da empresa. As mulheres só saíram do consulado após terem conseguido conversar com o vice-cônsul da Suíça, já que o cônsul não estava no momento, e ouvirem dele um comprometimento a se empenhar no esclarecimento do caso. Segundo a delegação de mulheres designadas para dialogar com o vice-cônsul, ele disse, entretanto, não poder fazer muito, já que a Syngenta é uma empresa transnacional sem ligação direta com o governo suíço.
As mulheres entregaram uma carta endereçada ao cônsul da Suíça Roland Fischer. O documento fala também sobre os crimes ambientais cometidos no Brasil pela transnacional, como os experimentos trangênicos ilegais na zona de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, pelos quais a empresa foi multada pelo Ministério do Meio Ambiente em um milhão de reais. A carta apresenta três reivindicações das mulheres camponesas:
“Que o Governo da Suíça envide esforços para que a Syngenta seja responsabilizada pela violência ocorrida em Santa Tereza do Oeste, que resultou na morte de duas pessoas e graves ferimentos em mais quatro; que o Governo da Suíça tome atitudes para que a Syngenta respeite a lei brasileira, deixando de desenvolver experimentos com transgênicos em Santa Tereza do Oeste; que o Governo da Suíça envolva-se na solução do conflito, apoiando a iniciativa do Governo do Paraná de desapropriar o Campo Experimental, para evitar que mais violações de direitos humanos ocorram”.

"Transgênico mata não só com veneno, pois matou a tiro o companheiro Keno", dizia uma das palavras de ordem entoadas pela mulheres
Para as mulheres da Via Campesina, o oito de março é um marco na luta. “Como a gente também é ser humano, também gostamos de celebrar o dia das mulheres, comemorar as conquistas que já tivemos, mas para nós o dia das mulheres é fundamentalmente fazer isso que estamos fazendo aqui. É botar a boca no mundo, porque quem não tem voz, não tem vez”, fala Eliana Souza da Silva, militante do MST e moradora do assentamento Terra Livre, na região sul do estado do Rio.
De acordo com Eliana, mulheres da Via Campesina estavam fazendo protesto em diversos estados. Em Brasília, houve manifestação na Embaixada da Suíça com a mesma pauta de reivindicações do ato realizado no Rio de Janeiro.
Moradora do local tenta expulsar mulheres
O prédio onde fica o consulado da Suíça no Rio de Janeiro, no bairro da Glória, também é residencial e possui características de uma construção que abriga pessoas de classe média ou até média alta, como escadarias bem enceradas e jardim frontal. Com a chegada das militantes, uma moradora do edifício se revoltou e tentou expulsá-las no grito.

O cansaço não impede de empunhar a bandeira
“Isso é uma propriedade particular. Saiam daqui!”, dizia a senhora, que não quis se identificar para o Fazendo Media. “Eu moro aqui. Não interessa quem eu sou. Isso é uma propriedade particular. Vocês não sabem nada de direito e vem aqui cobrar direitos!”, esbravejou. Uma militante a responde: “é porque pobre não pode ficar na porta do seu prédio, né senhora?!”.
Do carro de som, as mulheres da Via Campesina tentavam esclarecer aos moradores: “Moradores do prédio, nós não estamos aqui com nenhum problema com vocês, estamos aqui pacificamente para cobrar do consulado que tome atitudes contra a Syngenta”. O esclarecimento não adiantou muito.
“Isso é conseqüência da repercussão que a mídia dá a respeito do MST. Sabemos que a mídia está a serviço da manutenção do sistema, então, sempre chamam a gente de baderneiros. Por isso as pessoas não compreendem porque estamos lutando”, comenta a militante Eliana. Outras pessoas que passaram pelo local também mostraram profundo desconhecimento da luta das trabalhadoras rurais. Ao tentar entregar o material explicativo do protesto a uma mulher que passava, a militante escuta a resposta: “E eu vou lá querer alguma coisa dos sem terra. Vá procurar o que fazer!”.
Essas atitudes são sintomáticas da visão que as pessoas em geral têm sobre a luta dos trabalhadores rurais, mas não são motivos de desânimo para o movimento, que saiu de lá com o compromisso renovado de lutar contra os transgênicos e as transnacionais. “Basta um pedaço de terra para a semente ser pão, enquanto a fome faz guerra, a paz espera no chão”, cantaram as mulheres no final do protesto. [Foto: Sem terrinhas aprendem que a revolução social se faz com luta]
Polícia foi chamada por moradores do prédio
A polícia foi ao local atendendo ao chamado de moradores do prédio e funcionários do consulado, segundo informações do Tenente do 2º Batalhão da Polícia Militar Luiz Gouveia. Assim que a polícia chegou em três veículos, a mesma moradora que esbravejou contra as militantes e tentou inclusive agredir esta repórter que a fotografava se dirigiu para conversar com os policias.
A manifestação não foi reprimida pela polícia. O tenente afirmou que estava ali para orientar o trânsito do local e garantir tanto o direito de manifestação, quanto o direito dos moradores do prédio de ir e vir. Pelos cálculos da polícia, a manifestação tinha 50 pessoas, apesar das fotos evidenciarem um número muito maior de manifestantes.