Difícil acrescentar algo de
original aos debates sobre o trágico assassinato de um menino de 3 anos numa
rua da Tijuca, bairro do Rio de Janeiro em que eu também resido. Estava ouvindo
a rádio Bandnews quando Ricardo Boechat ordenou que o repórter franqueasse o
microfone ao pai da criança assassinada pela polícia, no momento em que o mesmo
tomava conhecimento da morte cerebral de seu filho. Naquele instante, a dor
daquele indivíduo era a dor de todos nós e não contive as lágrimas comovido com
aquela perda brutal.
Desde então a mídia explora o
assunto à exaustão, obscurecendo por vezes até mesmo a reflexão tão necessária
em momentos como esse, em que é preciso vencer o luto para continuar
sobrevivendo. Talvez uma boa chave de leitura para este episódio esteja numa
recente reportagem de Raphael Gomide, da Folha de S. Paulo, publicada em
18 de maio de 2008, no caderno Mais.
A matéria intitulada “PM por dentro” é capaz de explicar –
sem jamais justificar, evidentemente – porque policiais militares do Rio de
Janeiro fuzilaram um carro com uma mulher e duas crianças, supostamente
apostando que combatiam ladrões em fuga pelo bairro. O repórter fez um trabalho
minucioso de investigação sobre como se forma um policial nesta cidade.
Inscreveu-se num processo de seleção ainda em julho de 2007, passou por todas
as etapas e em janeiro de 2008 ingressou na escola de formação de soldados da
PM, no bairro de Sulacap.
Gomide permaneceu na condição de
recruta ao longo de algumas semanas e assim teve condições de observar
detalhadamente como se “constrói” um integrante da PM antes de ir para as ruas
portando uma arma. Na verdade o repórter revelou a grande farsa que é esse
processo de formação, extremamente precário e que em nada prepara um indivíduo
para o exercício de função tão nobre quanto esta.
Ou seja, naquelas páginas foi
possível perceber que um policial não passa por nenhum tipo de formação ou
treinamento que o qualifique adequadamente. Sua escola ... é a rua! Some-se a
isso salários indigentes e um governador que instiga seus policiais a agir como
verdadeiros cães de guerra, teremos então mais alguns elementos para
compreender as raízes da tragédia em questão.
Vivemos numa sociedade em que os
princípios neoliberais estão profundamente disseminados e daí advém a lógica de
que cada um pague pelo que quiser ou puder ter. Assim privatizamos ao máximo a
saúde, a educação e até mesmo... a segurança pública. Desta forma abandonamos a
educação ao sabor dos interesses econômicos tipicamente capitalistas, donde não
se espera outra coisa senão extrair lucros. E de que forma é possível lucrar
educando e formando policiais? Sai mais barato deixá-los morrer à míngua, sob a
mira de armas que jamais poderão usar, completamente despreparados,
sobrevivendo na base do “matar ou morrer”. E então eles matam até mesmo
crianças de 3 anos de idade...
Não existem soluções rápidas para
sair do abismo em que mergulhamos. E nele estaremos condenados a perecer caso
não sejamos capazes de reconhecer a importância da educação – seja de
policiais, seja de quem for – como a principal ferramenta capaz de construir
uma nova realidade. O valor do salário que hoje se paga a um policial ou a um
professor serve bem para medir o valor de nossas vidas: é quase nada...
(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.