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25.06.2008
PRODUÇÃO CULTURAL EM CUBA É TOTALMENTE LIVRE, AFIRMA VICE-MINISTRO CUBANO

Por Jéssica Santos e Leandro Uchoas - contato@fazendomedia.com

Fernando Rojas, vice-ministro da Cultura de Cuba, em entrevista exclusiva ao Fazendo MediaEm entrevista exclusiva ao Fazendo Media, o vice-ministro da Cultura de Cuba, Fernando Rojas, fala sobre a política cultural cubana. Segundo Rojas, “a abertura ao mercado” mencionada pelos grandes meios de comunicação após o afastamento de Fidel Castro não muda a relação do governo com a produção artística e cultural.

“Não se pode abstrair o mercado porque é a realidade de hoje, mas ao mesmo tempo tem que se tentar manter os serviços culturais acessíveis”, comenta. Fernando Rojas participou no Brasil do Fórum Internacional de Integração Latino-Americana e da XVI Convenção Nacional de Solidariedade à Cuba, ambos no Rio de Janeiro na semana de 19 a 24 de maio.

Fazendo Media - Nós estamos aqui (Fórum Internacional de Integração Latino-Americana) hoje discutindo o embargo econômico a Cuba. Mas me parece que parte da discussão é o embargo cultural. Quais são, então, as dificuldades que vocês estão enfrentando nesse sentido?
Fernando Rojas - Eu acredito que o principal problema que temos hoje, e eu me refiro ao principal problema material, está diretamente relacionado ao bloqueio econômico. Existem recursos que são necessários para a cultura, que se produzem em território dos Estados Unidos, e não se pode comprar. Então temos que comprar da China.

Por exemplo, os instrumentos musicais. Um violino, um piano, que Cuba não produz. Cuba produz violões. Então não podemos comprar em território americano. Temos que buscar na China. Perceba que a distância é muito grande, e isso encarece muito o custo. Em ordem material, existe esse tipo de dificuldade. E existe outro tipo de dificuldade que tem a ver com os mercados.

Os Estados Unidos proíbem que se compre produtos culturais cubanos. E este é um mercado natural, porque é próximo, e as pessoas têm um bom nível aquisitivo, porque gostam da cultura cubana. E de repente aparece esse problema que é a impossibilidade de colocar no mercado norte-americano nosso produto cultural. Não te permitem comprar nada nem vender nada.

Ao mesmo tempo nós dizemos: os americanos é que saem perdendo, porque esses problemas não têm provocado que as relações culturais de Cuba feneçam. Enquanto está acontecendo isso com os Estados Unidos, as relações culturais de Cuba vão crescendo. Cada vez temos mais relações comerciais com a América Latina.

Ontem mesmo eu vi aqui no Rio o trabalho de um artista cubano. Durou apenas algumas horas, mas acontece em qualquer lugar do mundo. Então, cada vez temos mais relações culturais. Cada vez temos mais artistas, mais produtos culturais. E mais artistas em outros países, e mais produtos culturais em Cuba.

Por exemplo, nessa semana estamos fazendo em Cuba um festival que se chama Cubadisco, que é a festa do Disco Cubano. E convidamos vinte países africanos. Artistas de vinte países africanos que estão participando conosco. É muito importante porque hoje, precisamente, o dia 21 de maio, é o Dia Mundial da Diversidade Cultural. E é muito importante que as relações sejam a cada dia mais intensas com o resto do mundo, e sobretudo com os países irmãos, com os países de menor desenvolvimento, com os países mais jovens, países que foram colonizados.

Também tem crescido nossa relação com os países da América Latina. Temos exposições, intercâmbios de espetáculos, intercâmbios de filmes, fazemos semanas de Cinema do Brasil, do México, da Argentina. Vemos muito Cinema de todo o mundo em Cuba. Temos incrementado as relações comerciais com os países da Ásia. Estamos conhecendo muito a cultura árabe, e os países árabes estão conhecendo nossa cultura.

E a produção de Cinema?
Nós estamos produzindo entre dez e quinze longa-metragens ao ano. Produzimos cerca de 80 curta-metragens, sejam documentário ou ficção. E mais de cinqüenta materiais em desenho animado. Isso como produção cinematográfica. Temos, além da produção cinematográfica, a televisiva. Temos uma televisão estatal, com cinco canais nacionais, e canais locais em todas as cidades. Uma televisão pública que também tem sua própria produção audiovisual.

Produz mais de cem videoclipes, produz telenovelas, e produzem também curtas de ficção. Ou seja, temos a produção audiovisual desenvolvida por duas vias: pela via do Cinema, e da televisão. Há produção de telenovelas também em Cuba. Alternam-se as telenovelas contemporâneas com as de época. Mas nos interessa que se reflita os assuntos contemporâneos, a vida das pessoas, o trabalho.

Quando o senhor viaja a outros países, especialmente da América Latina, ainda sente um preconceito em relação aos produtos culturais cubanos?
Eu acredito que ainda não se conhece suficientemente. Mas em geral, na minha opinião, a música cubana é cada vez mais conhecida. Conhece-se muito mais. O cinema cubano é muito conhecido, especialmente entre as pessoas que sabem ver cinema. Um problema é que temos perdido muito público de cinema como conseqüência do domínio dos meios.

Há muitas pessoas que se acostumaram a ver os produtos das transnacionais. E o comum é que o que vê os produtos das transnacionais não é um bom espectador dos produtos audiovisuais de maior nível. Mas entre as pessoas que têm uma formação, como público, eu sinto que se conhece o cinema cubano. E um pouco menos a literatura, que também é conhecida. Existem autores cubanos muito conhecidos, mas já não são tão conhecidos os autores contemporâneos. Mas repito, temos uma relação com países irmãos de muito desenvolvimento, ou seja, vamos nos conhecendo cada vez melhor, vamos nos encontrando cada vez mais.

Mas quando eu falo de preconceito, eu me refiro às pessoas que pensam que a produção cultural seria muito controlada, e teria por isso qualidade menor.
Ah sim, você não se refere ao produto, mas à opinião sobre a política cultural. Bom, o que eu acho é que ainda predomina a desinformação. Em Cuba não há nenhuma regra, não há nenhuma norma, não há nenhuma proibição para a criação artística. A nenhum artista se diz em Cuba o que tem que fazer. Os artistas produzem com total liberdade. Existe uma produção literária, musical, cinematográfica, de artes plásticas. Existe um tipo de produção que é conceitual, e de muito nível crítico. E essa produção se realiza e circula. E se apresenta inclusive fora de Cuba, e se pode conseguir pela internet.

Fernando Rojas, vice-ministro da Cultura de Cuba, em entrevista exclusiva ao Fazendo Media

Então, existe uma produção cultural forte de crítica sócio-política, mas também no sentido artístico, experimental. E essa produção se faz em Cuba com absoluta liberdade. E não digo somente que se faz, mas também que circula, ou seja, que é possível ter acesso a ela. Publicam-se livros, faz-se filmes críticos. Nosso Ministério promove e apóia a arte experimental e conceitual.

Eu acredito que a pessoa que tem um preconceito sobre a política cultural cubana na verdade não conhece a cultura cubana. Porque um conhecedor de cinema cubano, um conhecedor da literatura cubana, sabe que tem um alto nível de crítica, questionador. Portanto, o que eu lamento nesse preconceito que você menciona é que as pessoas talvez não estejam suficientemente informadas.

O senhor está mencionando com freqüência o cinema cubano. Existe uma escola internacionalmente conhecida de cinema em Cuba. Que ligação ela tem com a política cultural de seu ministério?
Sim, existem duas instituições onde se estuda cinematografia. Uma é a Faculdad de Medios Audiovisuales del Instituto Superior de Arte de Havana. Temos uma universidade de arte que estuda várias artes, e que tem várias faculdades, entre elas a faculdade de audiovisual, onde se estuda cinema, rádio e televisão. Ali estudam sobretudo cubanos, porque é a universidade de artes. As pessoas que estudaram arte toda a vida podem obter qualificação universitária em arte.

E existe também uma escola internacional de cinema que dá um plano de formação de períodos mais curtos. Ou seja, não são cursos universitários. São períodos de um, dois, três anos. É destinado a pessoas de todo o mundo, e basicamente forma as pessoas que já têm uma preparação empírica anterior. Forma-os como cineastas, ou seja, realizadores, diretores, roteiristas. É uma escola de muito prestígio. Por lá passam professores de todo o mundo. Existem professores de muito prestígio. Por exemplo, Gabriel Garcia Marques, Fernando Birre, Walter Salles. É uma escola que temos, que é nosso orgulho, e que está em posição dessa colaboração, dessa relação entre as culturas.

Agora que Raul Castro assumiu o comando, tem-se falado em pequenas mudanças em algumas políticas. Pode haver alguma mudança na área cultural?
Repito a você que temos uma política cultural muito aberta, de absoluto respeito a liberdade de criação, de uma relação muito estreita, aberta e fraternal com os artistas e escritores cubanos. Uma política cultural que entende que esse artista e esse escritor deve ser apoiado e sua obra deve circular entre as pessoas. Uma política cultural que estabelece subsídios, estabelece garantias, estabelece facilidades, respaldos financeiros e políticos para que a obra dos artistas sejam reconhecidas ativamente. Então, acredito que não tem que existir nenhuma mudança.

Mas houve comentários no Brasil de que poderia haver, na economia cubana, o que chamam de “uma abertura maior ao mercado”.
Acredito que temos que manter essa política. Veja bem, já que mencionas o mercado. Há relações com o mercado. A arte cubana tem sim relações com o mercado, e eu acredito que vai seguir tendo. Nós a temos há muito tempo. Não se pode dizer a um artista que não venda seu quadro, nem se pode dizer à indústria de disco que não venda o disco. Vamos seguir tendo essa relação.

O importante é que o cidadão siga podendo escutar música. E que esse artista que venda a uma galeria no estrangeiro, dê uma outra a um museu cubano, para que o povo cubano siga vendo a obra. Assim nós entendemos a questão. Nós vendemos livros no estrangeiro, mas o mais importante é produzir o suficiente para que o povo cubano leia. Eu acredito que temos que manter essa lógica.

Não se pode abstrair do mercado porque essa é a realidade de hoje. Ao mesmo tempo, tem que se tentar manter os serviços culturais acessíveis, com preços econômicos, que permitam a qualquer pessoa ir ao teatro, ao balé, ao cinema, à livraria. E tenho certeza de que isso vai continuar a acontecer garantindo, é claro, a mais absoluta liberdade de criação.

O senhor queria deixar mais algum recado?
Eu queria agradecer a oportunidade de compartilhar com tanta gente interessante nesse fórum de novos paradigmas aqui no Rio de Janeiro. Acredito que nós, brasileiros e cubanos, temos muita coisa em comum. Somos culturas mestiças, sincréticas, que seguem se desenvolvendo. Somos um povo de muita riqueza cultural, e isso nos identifica bastante com os brasileiros.


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